São Sebastião do Caí, Rio Grande do Sul, Brazil

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Correspondência recebida em 09 de Janeiro de 2012

Email recebido de Lucas:

Gostaria de parabenizá-lo pelo blog Língua Alemã Hunsrickisch, o blog é muito bacana e já aprendi bastante coisa acerca do dialeto. Eu sou de Santa Catarina e tenho uma dúvida, o Hunsrickisch falado no Rio Grande do Sul é o alemão oficial com palavras do português adaptadas ( por exemplo Schuraske, como consta em seu blog) ou ele já era dialeto da região do Hunsrück na Alemanha e teve algumas palavras incorporadas aqui no Brasil?  Também gostaria de saber se a música "Mein Schnoras" é de autoria de Bruno Neher dos 3 xirús ou é dos cantores da versão que está em seu blog? Outra coisa, existem outros dialetos alemães no Rio Grande do Sul? Ou este é o único falado?  Por que um dia eu estava no consultório médico, e entrou uma senhora já com bastante idade e sua filha, essa senhora só se comunicava com a filha em alemão, eu sei falar um pouco o alemão atual e não entendi nada do que elas falaram, e acredito que elas falavam o Hunsriqueno Riograndense porque moro no oeste catarinense e essa região foi colonizada por gaúchos, mas também penso na possibilidade de ser outro dialeto, dos alemães do Volga quem sabe. Outro fator que fez com que eu não entendesse é que elas falavam bem rápido e meu ouvido ainda não está bem afiado, estou aprendendo sozinho o Deutsch. Se puder responder agradeço e parabéns pelo blog novamente, é uma jóia rara este blog.

Auf Wiedersehen!

Resposta em 10/01/2012:

Olá Lucas,
Muito obrigado pelos comentários sobre meu blog pois é através destas injeções de ânimo que recebo diariamente de leitores que me fazem construí-lo cada vez mais com afinco. Afinal, elaborar os textos e gravá-los dá um trabalho monumental.
Sobre suas perguntas, vamos às respostas:
 - O hunsrickisch falado aqui no RS é o alemão trazido pelos nossos ascendentes entre 1824 e 1832, vindos da região de Hunsrück no sudoeste alemão. A língua perdurou por este tempo todo, sendo transmitida oralmente de geração em geração. Vale lembrar que o alemão Clássico foi adotado na Alemanha depois de nossos imigrantes virem ao Brasil. Então prevalesceu aqui um modo genuíno de falar uma língua alemã, a qual muito fascina os alemães pelo seu modo peculiar de expressões e palavras que já não são mais praticadas na Alemanha.
As palavras 'aportuguesadas' em sua maioria são palavras que surgiram devido às novidades que aqui existiam ou que foram criadas quando os alemães já estavam morando aqui. Assim o exemplo: Schuraske, prato típico gaúcho que não existia na Alemanha. Outros exemplos de coisas que surgiram depois: calçada - calçóde, Computador - computadoa, televisão - televissom, futebol - fusbal, frequentar - frekwentire, galinhada - galinióde, lambari - lambari, cará - caróo, muçum - schlangefisch, cascudo - cascude ou dreckfisch, joão-de-barro - dreckbaua, bem-te-vi - bentevii.
Já conhecido dos imigrantes, a andorinha continuou sendo schwalbche. E, diferentemente, o pardal recebeu aqui o nome de fridsfechelche (passarinho descançado), já que o nome spatz que é o original de pardal, aqui tem conotação pejorativa, significando o membro masculino.
- Sobre a canção Main Schnoras, realmente é da autoria de Bruno Neher dos 3 Xirus.
- Existem outros dialetos no RS, principalmente o westfaliano praticado não muito longe daqui na região de Encantado, Teutônia e Westfália. Além disto, também o pomerano é praticado aqui no RS, só não saberia precisar lugares.
Grande abraço e sinta-se a vontade quando tiver alguma dúvida, em me consultar.
Pio Rambo

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bissie Gelô: Mit Hunnad un Secs Ioa

Hea das graveadne chteck do hia: Ouça esta história gravada aqui:

        Bissie Gelô
    Mit Hunnad un Secs Ioa


    So wi di iore lóofe kann ma iedes mohl meh sihn das di lait lenga lewe.
    Es is grohsódich wi di lait lenga lewe haitsestóohe als fríasch. Wi ich ene klene guri wóod, dan hot es gehéest das ma mit fênneftsich ioa alt weat. Wenn en person mit meh wi fênneftsich ioa geschtorreb is, dann hot es gehéest una de lait:         - Och, de wóod io óoch schon alt! De is fon êlltatum geschtorreb!
    Dann, di person nêewa ihnem antwort:
    - Soll uns Gott hellfe das mea óoch so wait komme!
    Awa haitsestóohe, sin mea chon iore meh iwa fênneftsich un chpêere als das lebe noch am óngang is, un das ma noch fênneftsich ioa lewe kann.
    Do hot alles sich geénnat. Dorrich di meditsin un dorrich es equilibriatnes esse, sen mea komm an de punkt das ma laicht iwa achtsich ioa kommt. Wenn ene dann chtérrebt mit fênneftsich ioa, sóon mea: "Och, de is doch so iung gechtorreb!"
    Un so, mit de tsaite un dôrrich di tóoche, léeft es lewe un bringt ieda tsait meh lait mit wo sin meh wi achtsich ioa alt, foll gesunthéd un foll luste am lewe.
    Ene fróind fon mea sóod mohl fa mich das di lait wo gesuntlich alt wérre sin di wo kéhn bang hon fa de tecnologii mit gehn un khéen angst honn de naichkéede mit gehn.
    Un das is en woahéed. Di lait wo mit computadoa ummgehn, wo saine celulóa honn un wisse meh als nohre telefonire, di sinn so enngepakt mit de tecnologii, das di bessa es lewa waita bringe, un so lenga lewe.
    Un noch, do sinn di debai wo iwa hunnad ioa gehn, un passe góned uf uf es esse un uf sain lewe. Dann, doktre fawunnre sich iwa das di béessia un di fêttacha wo so wait komme, ohne sich bekimmre mit was se gemacht honn oda was se gêss honn.
    Fa se tsaiche wi das kimmt, is do das chteck fon dem alt béessie wo Leonilla gehéest hot. Es wód en chamant un frêhlich fréeche, wo chon an unnad un secs ioa komm wód. Si wód noch gehénntniss foll un hat en familie wo si mechtich in ehere imma gehall hat.
    Leonilla, das wód aigentlich ene eksempel fon en fróo wo sain ganses leben gebaut hot iwa di familie, iwa di comunited un iwa di ehere des fróindschaft un sain familie.
    Unn, wall sain familie sich óoch bekêmmad honn mit de bóos fonn meh wi hunnad ioa, honn se gehetst si soll, so wi es chon an de letste iore passiad is, bai de dokta gehn un sich consultire um sihen ob noch alles richtich weat.
    Si hot es empfang un is bai de dokta, fill meh iunga wi si, kennt bis en engelche fon ihnem sinn dorrich di unnschitt des iore. Ea hot dann tsu si foageschrib en hauffe eksóome um en bild mache fon sain gesunthéed.
    Si hot di ganse eksóome gemach, un wi alles féttich wód, do is si nochmol bai de dokta un hot di eksóome gestsaicht. De dokta hot di eksóome unnasuucht, un wi ea alles gesihn hat hot ea gemennt:
    - Filaicht tust du fill chmalts benutse.
    - Iawohl! - Antwort si. - Ich mache bohne, rais, flaisch un katoffle, alles mit chmalts.
    - Filaicht tust du óch fill tsukka benutse.
    - Iawohl! - Antwort si. - Ich mache kokos siis, bowre siis, millich siis, faiche siis, un frucht salód, alles mit tsukka.
    - Wust du das de tsukka un das chmalts chóode mache? - hot de dokta gefrod.
    - Gewiss! - Sód si.
    De dokta chpricht waita:
    - Ich honn óch do gesihn das du fill mehl benutse tust. Is das woa?
    - Iawohl! - Antwort das hunnad un secs iêrich béessie. - Ich backe brod mit mehl, chmalts, salts un tsukka, debai noch ferment, un di nochbaschleit wolle all en proofie fon dem brod honn.
    - Un dann wett noch salts debai gemischt! - Sód de dokta.
    - Io! - Sód di bóos. - Brod ohne tsukka un ohne salts is wi en flaisch ohne chmalts: es chmekt net. ...Awa wi host du alles das gesihn?
    - Ai dorrich dain eksóome. Ich honn gesihn das do tsu fill schmalts, tsukka un mehl in deinem kerwe sitst. Is alles tsu hoch. Un recomendire dich kreftich das du es schmalts, de tsukka un das mehl uf sait lost fa noch phóo meh ioa lewe.
    - Ah so? - Sód das alt béessie. - Soll ich dan wercklich das chmalts, de tsukka un das mehl uf sait losse fa lenga lewe?
    - Richtich so! - Sód de dokta.
    - Chpassich! - Sóod das béessie. - Du bist chon de fênefte dokta wo mea das sêlwiche sód. Di annre fia wo mea das gesód honn, honn ich schon foa lange ioore gehollef beédiche.
    (Ieda enlichkaite sin nua cointsidense).

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    TRADUÇÃO:

    Meias verdades

    Com cento e seis anos

    Assim como os anos correm cada vez se vê que as pessoas envelhecem mais.
    É impressionante como as pessoas vivem a mais hoje em dia em comparação com antigamente. Quando eu era um garoto, diziam que com cinquenta anos se era velho. Quando uma pessoa falecia com mais de cinquenta anos a conversa entre as pessoas soava assim:
    - Ora, ele já era tão velho! Ele morreu de velhice!
    Então, a pessoa que estava  ao seu lado respondia:
    - Que Deus nos ajude chegarmos também tão longe!
    Mas hoje em dia, já passamos dos cinquenta e sentimos que a vida ainda está no começo e que ainda poderemos viver mais cinquenta anos.
    Tudo mudou. Através da medicina e da comida balanceada chegamos no ponto onde facilmente passamos dos oitenta anos. Então quando alguém morre com cinquenta anos, nós dizemos: "Ora, ele morreu tão jovem!"
    E assim, com os tempos e através dos dias, a vida corre e trás sempre mais pessoas que passam dos oitenta anos de idade, cheias de saúde, cheias de entusiasmo e vida.
    Um amigo meu um dia me disse que as pessoas que envelhecem com saúde são as que não têm medo de acompanhar a tecnologia e que não se angustiam em acompanhar as novidades.
    E isto é uma verdade. As pessoas que lidam com computador, que tem seu celular e sabem tirar dele mais do que só telefonar, estão tão engajadas com a tecnologia a ponto de levarem a vida com mais qualidade e viverem mais.
    E ainda, juntam-se a eles aqueles que passam de cem anos e não cuidam o que comem e de sua vida. Então, doutores se impressionam das velhinhas e velhinhos que chegam tão longe sem se preocuparem com o que fizeram ou o que comeram.
    Para mostrar como isto acontece, tem a história daquela velhinha que se chamava Leonilla. Era uma senhora simpática e alegre, que já chegara aos cento e seis anos. Ela ainda estava com a mente em sã consciência e tinha uma família que estimava muito.
    Leonilla, na realidade era um exemplo da mulher que construiu sua vida em torno da família, na comunidade e pelo orgulho da amizade de sua família.
    E porque a família também se preocupava com a saúde da velhinha centenária, faziam com que ela fosse, assim como aconteceu já no ano anterior, se consultar com um médico e fazer um checkup.
    Ela aceitou e foi ao médico, aliás bem mais jovem que ela, pudesse até ser seu neto pela idade. Ele então lhe prescreveu uma bateria de exames a fim de fazer um retrato de sua saúde.
    Ela fez todos os exames, e quando estava tudo pronto, retornou ao médico e lhe mostrou estes exames. O doutor os examinou e após ver todos os resultados, disse:
    - Talvez você esteja usando banha demais.
    - Sim! - Respondeu ela. - Faço feijão, arroz, carne e batatas, tudo com banha.
    - Talvez você também esteja usando açúcar demais.
    - Sim! - Respondeu ela. - Faço doce de coco, doce de abóbora, doce de leite, doce de figo e salada de frutas, tudo com açúcar.
    - Sabia que o açúcar e a banha fazem mal? - Perguntou o doutor.
    - Certamente! - Disse ela.
    O médico continuou falando:
    - Também vi que você usa muita farinha de trigo. É verdade?
    - Sim! - Respondeu a centenária. - Asso pão com farinha de trigo, b anha, sal e açúcar, junto ainda com fermento e os vizinhos todos querem uma provinha deste pão.
    - Então ainda acrescenta sal! - Disse o doutor.
    - Sim! - Disse a velhinha. - Pão sem açúcar e sem sal é como carne sem banha: não tem gosto. ...Mas, como você viu tudo isto?
    - Através de seus exames. Eu vi que você tem muita banha, açúcar e farinha acumulado em seu corpo. Todos os índices estão muito altos. E recomendo com firmeza que você abandone a banha, o açúcar e a farinha para viver mais alguns anos.
    - Ah é? - Disse a velhinha. - Devo então realmente deixar de lado a banha, a açúcar e a farinha de trigo para viver mais alguns anos?
    - Certamente! - Disse o doutor.
    - Engraçado! - Disse a velhinha. - Você já é o quinto médico que me diz a mesma coisa. Os outros quatro que me falaram isto, há muitos anos atrás participei de seu enterro.
    (Qualquer semelhança é mera coincidência)
    




domingo, 4 de dezembro de 2011

Interessante Matéria sobre o Hunsrickisch e Walachai

 
O dialeto esquecido

Comunidade no sul do país usou português para completar as lacunas do dialeto alemão que usa há mais de 180 anos.
Edgard Murano
 


No Rio Grande do Sul, a 100 quilômetros de Porto Alegre, fica Walachai, um povoado de origem alemã que sempre viveu à margem. Na pequena comunidade rural, localizada na Serra Gaúcha, as pessoas falam um dialeto alemão chamado Hunsrückisch - também conhecido como "hunsriqueano" - e ainda vivem como se vivia cem anos atrás. Não por acaso, Walachai quer dizer "lugar distante, onde o tempo parou" em alemão antigo, expressão que faz jus ao seu clima bucólico.
O dialeto hunsriqueano, com origem na região do Hunsrück, no sudoeste da Alemanha, é uma das línguas minoritárias mais faladas no Brasil. Por "língua minoritária" entenda-se o idioma de uma minoria étnica situada numa dada região. O dialeto hunsriqueano representa uma das trinta línguas trazidas ao país por imigrantes, ao lado de aproximadamente 180 línguas indígenas existentes no Brasil. Embora não haja um levantamento preciso sobre o número de pessoas que falam o dialeto, sabe-se que estão espalhados em 38 localidades, a maioria no sul do país - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - onde os primeiros alemães se concentraram, no início do século 19.

Arcaico
O distrito de Walachai ficou conhecido quando um professor local, João Benno Wendling, decidiu registrar a história de seu povoado em livro, ao qual teve acesso a diretora de cinema Rejane Zilles, natural da cidade.
Foi o bastante para que ela resolvesse transformá-lo no documentário O Livro de Walachai (2007), mais tarde retomado no longa-metragem Walachai (2009), exibido na 33ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro passado. Wendling dedicou toda sua vida à alfabetização em português das crianças do distrito, e suas anotações, mais de 400 páginas escritas à mão, formam um relato minucioso da cultura e dos costumes locais.
- Fiquei comovida com a dedicação abnegada deste homem, que durante nove anos, sem nenhum auxílio, se dedicou a registrar a história do nosso povoado. Percebi que tinha ali um ótimo roteiro, mas o tempo urgia, pois o professor na época já tinha 82 anos e a saúde debilitada - conta Rejane.
O hunsriqueano é uma espécie de alemão arcaico, recheado de expressões que não encontram mais equivalência na língua alemã atual. Esse dialeto vem sendo transmitido de geração em geração desde a chegada dos primeiros imigrantes alemães, há mais de 180 anos. Por ser essencialmente falado, o hunsriqueano praticado no Brasil não dispõe de uma escrita sistematizada, valendo-se, normalmente, do chamado alemão-padrão (Hochdeutsch) e do português para o registro.

Identidade
O professor Cléo Altenhofen, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que são frequentes e notórios os juízos de valor depreciativos sobre as línguas minoritárias, em especial aquelas orais, caso do hunsriqueano.
- Essa condição de dialeto, situado abaixo da norma padrão, e de língua marginal submissa à língua oficial, o português, aliada à posição social dos imigrantes, tem dado margem a depreciações do Hunsrückisch, incluindo atributos como verlorene Sproch ["língua perdida"], vebrochne Deitsch ["alemão quebrado"] ou Heckedeitsch ["alemão do mato"] - diz Altenhofen.
O professor destaca o valor social do dialeto.
- Uma língua significa muito mais do que uma lista de palavras ou de regras gramaticais. É também um sinal de identidade - justifica.

Empréstimos
A diretora Rejane Zilles sentiu na pele, durante uma viagem pela Alemanha, o peso da identidade e o "anacronismo" do dialeto de Hunsrück em relação ao alemão culto.
- Cheguei a Berlim falando apenas o dialeto. Eu me sentia quase um "objeto antropológico". As pessoas tinham enorme curiosidade para saber de onde vinha esse alemão que eu falava e me diziam ser curioso ouvir uma pessoa jovem usando expressões tão antigas - diz ela.
Essa cultura própria, independente da matriz alemã, se evidencia nas influências do português sobre o hunsriqueano. Muitas palavras foram tomadas de empréstimo pelo dialeto devido à falta de conhecimento de suas correspondentes em alemão-padrão. Bom exemplo é "televisão", que não fora inventada à época da imigração. Foi "descoberta" mais tarde só pelo nome que lhe deram aqui no Brasil, ignorando que na Alemanha o aparelho chamava-se Fernseher. Há exemplos de hibridismos: Mais (milho) é de origem alemã, mas não era usada pelo dialeto. Em vez do alemão-padrão Maismehl (farinha de milho), o hunsriqueano criou o termo Milhomel. E de substrato: "guri", "menino" para os gaúchos, vai para o plural hunsriqueano com a flexão (e) do paradigma alemão: Gurie (outros exemplos no quadro ao lado).

Segregação
Regina Zilles diz que, ao rodar o documentário, queria desfazer o mito de que as comunidades alemãs optem pela segregação cultural.
- Muitos acham que "esses alemães" ficam louvando a Alemanha e seus costumes, ao modo das típicas festas de Oktoberfest. É claro que há esse segmento, mas não é a realidade de Walachai, um lugar que conheço de dentro, pois nasci lá. A Alemanha de origem está muito distante para essas pessoas humildes, da qual não sabem nada e nem demonstram interesse em conhecer. Já se criou uma cultura própria e essa sim me interessa revelar - diz.
Há uma real dificuldade, especialmente entre os idosos em Walachai, de falar português. Isso se deve, em parte, à política de nacionalização do Estado Novo (1937-1945). Getúlio Vargas reprimiu o ensino de alemão nas escolas. A proibição, de forma vertical e arbitrária, prejudicou o aprendizado do português, pois os alunos chegavam à escola e não entendiam o que o professor explicava. Mesmo depois de 1939, com a Campanha de Nacionalização do Ensino, o governo não tomou medidas que incorporassem os colonos alemães à cultura brasileira, e o aprendizado de toda uma geração foi afetado.
Durante todo esse tempo, Walachai viveu o limbo de dois idiomas que se cruzam.


   Termos emprestados do português pelo hunsriqueano
HUNSRIQUEANO
PORTUGUÊS
ALEMÃO-PADRÃO
Feschón
Feijão
Bohnen
Fakón
Facão
Buschmesser
Karét
Carreta
Lastwagen
Amesche
Nêspera
-
Past
Pasto
Weide
Makák
Macaco
Affe
Mule
Mula
Maultier
Onze
Onça
Jaguar
Schikót
Chicote
Peitshe
Karose
Carroça
Leiterwagen
Schuraske
Churrasco
Grill
                       Kanelepaum         
      Caneleira
         Zimtbaum
 
 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Bela reportagem que saiu na tv Alemã, no programa Sammstag Abend:

Veja o video da matéria aqui: guck do hia de video fon dem tema:


Veja o artigo da matéria:
Ca. 1 000 000 Menschen wanderten in den letzten 3 Jahrhunderten aus ganz Deutschland nach Brasilien aus. Jedoch war es der Hunsrücker Dialekt, der sich durchsetzte und den die Auswanderer nun schon in der 7. Generation pflegen und am Leben erhalten.
Vor kurzen besuchten sie ihre Heimat ...

Tradução:

Cerca de 1 000 000 pessoas emigraram nos últimos 3 séculos de toda a
 Alemanha para  Brasil afora. No entanto, foi o dialeto hunsrickisch que sobreviveu e apesar de estarem na sétima geração em descendência, ainda mantém vivo entre eles.
Há pouco tempo visitaram sua terra natal...

domingo, 27 de novembro de 2011

Nova Colunista: Chteka von dea tsait wo ich klêen wód - Isolde Marx

Comentário:

Fiquei muito feliz e realizado com o comentário feito por esta nova leitora do blog e sua colaboração, para sentirmos de perto que nosso Hunsrickisch está longe de desaparecer. É através de contribuições valiosas como esta da Isolde que podemos sentir de perto que estamos renascendo. E se você tiver uma história, conte ela! Se não souber escrever em hunsrickisch, adapto para nosso blog.
Obrigado Isolde pela coragem e a boa vontade em contribuir. Espero que este seja o primeiro de muitos artigos.

Gontach, prime Pio

Krót hon ich gesiin dass ich dea noch ken antwort gechikt hat, tut mea laid. Ich wohne iets chon fier iôa in Joinville, hat áwwa foahea meh als draissig iôa in São Paulo gelebt. Ich hat mea als fierzich iôa nore gans gans selde mol platt daitsch gesprôch und hon ach noch net fill dii gelegehéd. Platt se chraiwe fange ich krót eascht óon un wêes noch net so richtich wii ich es chraiwe soll. Dórrich daine blog hon ich krót gesiín, dass es chon en sistem gibt, áwwa ich mênne es soll doch noch ebbes met dea daitche chrift se tôon hon. So wii du chraibst gefellt mea am beste.
Beste griisse un noch en chêne sôntach.
Isolde


Boa tarde, primo Pio
Recentemente eu vi que ainda não havia enviado resposta, sinto muito. Moro agora há quatro anos em Joinville e vivi antes disto, mais de trinta anos em São Paulo. Durante quarenta anos raras vezes falei o alemão Hunsrickisch pois não tive muitas oportunidades. Escrever o dialeto a recém estou iniciando e não sei se estou escrevendo certo. Através do teu blog fiquei sabendo que já existe um sistema (de escrita) mas espero que tenha algo a ver contigo. Assim como tu escreves é o que melhor me agrada.
Estimadas lembranças e ainda um ótimo domingo.
Isolde




Chteka von dea tsait wo ich klêen wód
                          Isolde Marx

Ich wód noch uf dea alt colonii guebôa, awa wii ich siwe monat alt wód, do sinn de papai un di mamai met mea in Sanda Catarina guevánnat und dót is de ganze tropp khenna dann nô komm bis die familhe fétich wód. Dót hon die lait óoch daitsch gechproch. Awa net so wait wech von uns wód en italiener gemaind, deshaleb hot de phóda sôntachs in de kérrich imma uf daitsch un uf brassiliónich gepredicht. In selwicha tsait hot ma brassiliónich earscht chpreche gelénnt wenn ma in di chuul
gang is. Awa ênmol hat ich doch en póo wétta brassiliónich ráuskriit. Das wód sôo: Mea hare en nôchba, de konnt óoch daitsch chpreche, hat awa en italiener frómench guehairat un desweche konnte denne ere khenna kêen daitsch. Di hare êmol en tsait lang kêen khuu un di khenna sinn desweche jede móind bai uns die millich hôlle komm. Êne sôntach móind wód de papai un di mamai mit dem nenne in die kérrich guefóo, ich un maine andre bruda musste de hemm blaive. Ich denke ich wód so fênef iôa alt un de bruda wód noch klêner, mea hon foam haus gechpillt. Dô komme uf êmol die nôchbas khenna. Ia, di mamai wód net dô um ich wód noch zu klêen fa denne di millich se gêwwe. Ia, mea hon ênfach dô guechtánn, di khenna hon net met uns guespillt, sin awa ach net fott gang. Das wód mea uf êmol so halwa chpassich, do hon ich di curój kriit un hon guesód: “mãe missa”. Wáachainlich hat ich die wétta fom phóda in de kérrich gueheat, es háupste wód awa, di khenna hon das fachstánn un sin hemm gang. Mea hon denne dann speter di millich hin guebrung wii di mamai hemm komm is.

De papai konnt so bíssie brassiliónich chpreche um hot ach álsmo met de italiener guechproch wenn dii bai uns am wech dórrich komm sinn. Êmol, ich wês nimme obs foa de kéreb wód ora foa ôstre, do hat ma io kuche se bágge, awa mea hare grót net guenuuch óia, desweche is main bruda bai di vôvo gechickt geb fa óia se hôlle. Do is dee grót met em kérebche fôll óia an de wêech komm, do kommt en italiener met em blumiche himd uf em gaul. De hat de papai io guekénnt un wollt mainem bruda en carona uf em gaul guêwe, hot awa natealich uf brassiliónich guechpróch. De bruda hot awa sôo en bang kriit, de hot das kérebche met samt de óia wêch guewórref um fott wód ea. Di óia fa de kuche wóre natêalich óoch fott.

Êmol háre de papai und di mamai foa de kéreb ene ganse engradóde foll flache gassose kóft. Hot noch iemand fon aich fría gassose guetrunk? Awa wii die kéreb komm is, wóre die gassose flache all fadórreb. Das wód sô gewês: maine tswérriche briida wóre en tóch mol alêen de hemm, do hon se fon ieda flach en bíssie getrunk, dass nímmand was mergue sollt. So must de papai dann fa di kérreb naie gassose kóofe.

Foam esse hot ma natêalich imma guebêt, óoch wenn mea khenna net imma alles fachtánn hon, tsum baichpill: “O mein Gott un Herr ich glóve alles vas Du offenbart hast”. Do hon ich êmolgefrôt: “ia, was hot de hérrgott dann uf em bóod?”

Ich wêss net, hat ma uf de alt colonii óoch françose uf de plantój? Das wód en únkraut wo ma in de ross net lôss guêwe konnt, das hot guebliit un fill sôome gemacht um glaich wód alles foll fon dem. Uf brassiliónisch hêsst das buva. Wii ich klêen wód hat ich net guewusst dass françose ene francês is. Eascht khétslich hon ich en bíssie iwa de hunsrick studíat, in dea internet, wêsste, do kann ma haitso tóch io nêxt alles lénne, guéll? Do honn ich êmol guelês wii die françose, di wo in França
wôone, imma un imma de hunsrick invadiert hon, desweche hare di lait di françose net guénn und hon geche die lutiert. Awa eb se wech gang sinn, hon die françose imma alles fabrênnt und kaput guemacht. Do is es mea eascht ínnguefall, dass di daitsche hia, wii se di buva net loss wérre konnte, wáchainlich so guesót hon: “Grót so wi di françose, die kánnste ruich áushácke ore áusrobbe, di komme awa doch nômmo”. Was denkt dea denn de von? Mecht das so guewên sin?


TRADUÇÃO:

Histórias do tempo quando era criança.
                          Isolde Marx

Eu ainda nasci na velha colônia, mas quando tinha sete meses, meu pai e minha mãe se mudaram comigo para Santa Catarina, e lá vieram depois a tropa de crianças até a família estar completa. Lá também as pessoas falavam alemão. Mas, nem tão distante de nós tinha uma comunidade italiana e por este motivo o padre fazia os sermões de domingo em alemão e português. Naquela época se aprendia a falar o português só quando se ia para a escola. Mas, de repente, consegui arrancar algumas palavras em português. Isto foi assim: nós tínhamos um vizinho o qual também sabia falar alemão, mas ele casou com uma italiana e por este motivo seus filhos não falavam alemão. Certa época eles ficaram um tempão sem ter uma vaca e por isto seus filhos vinham todas as manhãs lá em casa pegar o leite. Certo domingo de manhã, o pai e a mãe, juntamente com o nenê foram à missa e eu e meu irmão tivemos que ficar em casa. Acredito que eu tinha uns cinco anos e meu irmão ainda era mais novo. Ficamos brincando na frente de casa. De repente apareceram os filhos do vizinho. Sim, a mãe não estava aí e eu era muito pequena para dar o leite às crianças. Nós estávamos aí parados, os filhos do vizinho não brincavam conosco, mas também não iam embora. Isto me ficou meio estranho, até que criei coragem e disse: "mãe, missa!" Talvez eu tenha ouvido estas palavras do padre na igreja, mas o mais importante foi que  as crianças me entenderam e foram para casa. Então mais tarde levamos o leite até eles, quando a mãe havia retornado.

O pai sabia algumas palavras em português e falava de vez em quando com os italianos quando eles passavam na rua na frente de casa. Certa vez, não lembro se foi antes do kerb ou da Páscoa, então se assava cucas. Mas, nos faltaram ovos, então meu irmão foi enviado para a casa da vó para pegar mais ovos. Então, quando voltava, encontrou na estrada um italiano a cavalo com uma camisa florida. Ele conhecia o pai e quis dar uma carona no cavalo, mas, naturalmente, falou em português. Meu irmão se assustou, atirando longe o balainho com os ovos. E lá se foram os ovos (da cuca).

Certa vez o pai e a mãe compraram um engradado de gasosas para o kerb. Alguém de vocês tomou gasosa antigamente? Mas quando chegou o kerb, as garrafas de gasosa estavam estragadas. Foi assim: meus irmãos moleques ficaram uma vez um dia sozinhos em casa, então tomaram um gole de cada garrafa para não dar na vista. (Todas estragaram) Então meu pai teve que comprar novas gasosas para o kerb.

Naturalmente, antes das refeições sempre se rezava, mesmo que nós crianças, às vezes não entendíamos tudo, como por exemplo: "Ó meu Deus e Senhor, eu acredito em tudo que tens oferecido!" Então, certa vez perguntei: "O que Deus tem sobre a barba?" (ela havia entendido o termo: offenbart {oferecido} como sendo of em bóod {sobre a barba}.

Não me lembro, mas na velha colônia também havia franceses na roça? Isto era um inço que a gente não conseguia tirar da roça. Isto florescia, tinha muitas sementes e logo tudo estava minado com este inço. Em português se chama buva. Quando eu era pequena não sabia que os franceses eram os Franceses. Recentemente estudei um pouco sobre Hunsrück e então li que os franceses os nativos da França, sempre e sempre invadiam o Hunrsrück e por este motivo as pessoas não gostavam dos franceses e lutava contra eles. Mas antes que os franceses fossem embora, sempre queimavam e derrubavam tudo. Então caí em mim o porquê do nome deste inço, porque quando não conseguiam se livrar do buva diziam: "Que nem os franceses, pode arrancar ou capinar, eles voltarão." O que acham? Foi realmente assim?