São Sebastião do Caí, Rio Grande do Sul, Brazil

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Blog falando do nosso alemão Hunsrickisch

Olá amigos e amigas.
Para mim sempre é uma satisfação poder publicar outros endereços que mencionam ou falam a respeito de nossa bela língua, o hunsrickisch. Desta vez, é o blog do aspirante a professor de português e Inglês, Jonathan Zotti da Silva.
O link do seu artigo no blog é:
http://alunojon.blogspot.com/2012/02/hunsruckisch.html



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Canção em Alemão Hunsrickisch: Di drai Iechta



Ouça esta canção aqui: Hea das liid do hia:

DIE DRAI IECHTA                                      OS TRÊS CAÇADORES
Banda América - Di drai Iechta            Banda América - Os três Caçadores

(Geschproch: "Dea liwe fróinde, ich      (falado: "Queridos amigos, quero lhes
will aich mohl fatsêele fon de safóode    contar uma coisa: dos safados dos três
drai ieacht dort  driwe in de picóod.")    caçadores lá na picada.")
I                                          I
Ich will aich was fatsêele                   Quero contar algo a vocês
Dea lait das is en fêela                      Pessoal, isto é um  erro
Drai iechta gehn in de walt                Três caçadores foram ao mato
Da hat's ach schon geknallt.              E então já se ouviu o estampido.
Ich will aich was fatsêele                  Quero contar algo a vocês
Dea lait das is en fêela                     Pessoal, isto é um  erro
Drai iechta gehn in de walt               Três caçadores foram ao mato
Da hat's ach schon geknallt.              E então já se ouviu o estampido.

Stribill:                                           Estribilho:
Oiêe, oiêe, di drai iechta                    Ora, ora, os três caçadores 
Honn fill caróoj                                 Têm muita coragem
Kom' im nachba sain plantóoj              Entram na plantação do vizinho
Un de mann de hat geróost                 Deixando o homem na loucura!
Oiêe, oiêe, di drai iechta                    Ora, ora, os três caçadores 
Honn fill caróoj                               Têm muita coragem
Kom' im nachba sain plantóoj              Entram na plantação do vizinho
Un de mann de hat geróost                Deixando o homem na loucura!


Chpillung                                        Solo
(Geschproch: "Oiêe, die kratste           (falado: "Ora, eles cavocam 
dem nochbar sain batate all raus.         as batatas dele  todas para fora.
Was sóon dan di lait? De mann, de         O que então dizem as pessoas? 
hat khen batate meh'!")                     O homem não tem mais batatas.")

II                                        II
De ene kommt fon driwe,                   Um vem de lá
De annre lóoft schon niwwe,               O outro já corre ali adiante,
Dan fehlt noch mohl de Pitt               Então ainda falta o Pedro
De kommt schon óngerrit.                  Ele já vem a cavalo.
De ene kommt fon driwe,                   Um vem de lá
De annre lóoft schon niwwe,               O outro já corre ali adiante,
Dan fehlt noch mohl de Pitt               Então ainda falta o Pedro
De kommt schon óngerrit.                  Ele já vem a cavalo.

Stribill:                                           Estribilho:
Oiêe, oiêe, di drai iechta                   Ora, ora, os três caçadores 
Honn fill caróoj                                 Têm muita coragem
Kom' im nachba sain plantóoj              Entram na plantação do vizinho
Un de mann de hat geróost                 Deixando o homem na loucura!
Oiêe, oiêe, di drai iechta                    Ora, ora, os três caçadores 
Honn fill caróoj                                  Têm muita coragem
Kom' im nachba sain plantóoj              Entram na plantação do vizinho
Un de mann de hat geróost                 Deixando o homem na loucura!

(Geschproch: "De Pitt, wenn de soll       (Falado: " O Pedro, quando é para
chaffe gehn, dann will de io saine        trabalhar, então ele quer o seu burro.          muhle honn. Awa ene gute iechta is ea:                  Mas ele é um bom caçador: 
de hat mohl mit enem schuss ellef          abateu uma vez com um tiro
koati ronna geschoss.)                        11 coatis.!
III                                       III
Móinds frii, wóod das noch dunkel         De manhã cedo, ainda era escuro
Da hat es schon gerrumbellt               Então já iniciava o barulho.
Dann lait ma noch im bett                 Enquanto ainda deitado na cama 
Dann kracht schon di spolet.              Já espocava a espoleta.
Móinds frii, wóod das noch dunkel         De manhã cedo, ainda era escuro
Da hat es schon gerrumbellt               Então já iniciava o barulho.
Dann lait ma noch im bett                 Enquanto ainda deitado na cama 
Dann kracht schon di spolet.              Já espocava a espoleta.

Stribill:                                 Estribilho:
Oiêe, oiêe, di drai iechta                Ora, ora, os três caçadores 
Honn fill caróoj                          Têm muita coragem
Kom' im nachba sain plantóoj              Entram na plantação do vizinho
Un de mann de hat geróost                 Deixando o homem na loucura!
Oiêe, oiêe, di drai iechta                Ora, ora, os três caçadores 
Honn fill caróoj                          Têm muita coragem
Kom' im nachba sain plantóoj              Entram na plantação do vizinho
Un de mann de hat geróost                 Deixando o homem na loucura!

(Geschproch: "Móinds frii, dann           (Falado: "De manhã cedo, se gostaria
téed ma noch genn bissie chloofe, dann    de dormir um pouco mais, então já
kracht das schon in alla ecke romm.")     espocam os foguetes pelos cantos.")

IV                                        IV
Ich dérref net drón denke                 Nem me atrevo a pensar a respeito
An di drai grosse bengle                  Destes três marmanjos
So en ganse tóoh in de heckke             Um dia inteiro nos brejais
Un das fii wóod derr wi chteckke.         E seu gado magricela como varas.
Ich dérref net drón denke                 Nem me atrevo a pensar a respeito
An di drai grosse bengle                  Destes três marmanjos
So en ganse tóoh in de heckke             Um dia inteiro nos brejais
Un das fii wóod derr wi chteckke.         E seu gado magricela como varas.

Stribill:                                 Estribilho:
Oiêe, oiêe, di drai iechta                Ora, ora, os três caçadores 
Honn fill caróoj                          Têm muita coragem
Kom' im nachba sain plantóoj              Entram na plantação do vizinho
Un de mann de hat geróost                 Deixando o homem na loucura!
Oiêe, oiêe, di drai iechta                Ora, ora, os três caçadores 
Honn fill caróoj                          Têm muita coragem
Kom' im nachba sain plantóoj              Entram na plantação do vizinho
Un de mann de hat geróost                 Deixando o homem na loucura!

(Geschproch: "Di honn als so phó          (Falado: "As vezes eles têm alguns
schwain dorom lóofe. Di sinn so           porcos correndo por aí. Eles são tão
dérr, denna mus ma knippe in di           magros, que se precisa fazer um nó nos
chwents renn binne dassie net             rabos para que eles não caiam
fon de risse ronna falle tun!")           através das frestas (do chiqueiro).")

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Correspondência recebida em 09 de Janeiro de 2012

Email recebido de Lucas:

Gostaria de parabenizá-lo pelo blog Língua Alemã Hunsrickisch, o blog é muito bacana e já aprendi bastante coisa acerca do dialeto. Eu sou de Santa Catarina e tenho uma dúvida, o Hunsrickisch falado no Rio Grande do Sul é o alemão oficial com palavras do português adaptadas ( por exemplo Schuraske, como consta em seu blog) ou ele já era dialeto da região do Hunsrück na Alemanha e teve algumas palavras incorporadas aqui no Brasil?  Também gostaria de saber se a música "Mein Schnoras" é de autoria de Bruno Neher dos 3 xirús ou é dos cantores da versão que está em seu blog? Outra coisa, existem outros dialetos alemães no Rio Grande do Sul? Ou este é o único falado?  Por que um dia eu estava no consultório médico, e entrou uma senhora já com bastante idade e sua filha, essa senhora só se comunicava com a filha em alemão, eu sei falar um pouco o alemão atual e não entendi nada do que elas falaram, e acredito que elas falavam o Hunsriqueno Riograndense porque moro no oeste catarinense e essa região foi colonizada por gaúchos, mas também penso na possibilidade de ser outro dialeto, dos alemães do Volga quem sabe. Outro fator que fez com que eu não entendesse é que elas falavam bem rápido e meu ouvido ainda não está bem afiado, estou aprendendo sozinho o Deutsch. Se puder responder agradeço e parabéns pelo blog novamente, é uma jóia rara este blog.

Auf Wiedersehen!

Resposta em 10/01/2012:

Olá Lucas,
Muito obrigado pelos comentários sobre meu blog pois é através destas injeções de ânimo que recebo diariamente de leitores que me fazem construí-lo cada vez mais com afinco. Afinal, elaborar os textos e gravá-los dá um trabalho monumental.
Sobre suas perguntas, vamos às respostas:
 - O hunsrickisch falado aqui no RS é o alemão trazido pelos nossos ascendentes entre 1824 e 1832, vindos da região de Hunsrück no sudoeste alemão. A língua perdurou por este tempo todo, sendo transmitida oralmente de geração em geração. Vale lembrar que o alemão Clássico foi adotado na Alemanha depois de nossos imigrantes virem ao Brasil. Então prevalesceu aqui um modo genuíno de falar uma língua alemã, a qual muito fascina os alemães pelo seu modo peculiar de expressões e palavras que já não são mais praticadas na Alemanha.
As palavras 'aportuguesadas' em sua maioria são palavras que surgiram devido às novidades que aqui existiam ou que foram criadas quando os alemães já estavam morando aqui. Assim o exemplo: Schuraske, prato típico gaúcho que não existia na Alemanha. Outros exemplos de coisas que surgiram depois: calçada - calçóde, Computador - computadoa, televisão - televissom, futebol - fusbal, frequentar - frekwentire, galinhada - galinióde, lambari - lambari, cará - caróo, muçum - schlangefisch, cascudo - cascude ou dreckfisch, joão-de-barro - dreckbaua, bem-te-vi - bentevii.
Já conhecido dos imigrantes, a andorinha continuou sendo schwalbche. E, diferentemente, o pardal recebeu aqui o nome de fridsfechelche (passarinho descançado), já que o nome spatz que é o original de pardal, aqui tem conotação pejorativa, significando o membro masculino.
- Sobre a canção Main Schnoras, realmente é da autoria de Bruno Neher dos 3 Xirus.
- Existem outros dialetos no RS, principalmente o westfaliano praticado não muito longe daqui na região de Encantado, Teutônia e Westfália. Além disto, também o pomerano é praticado aqui no RS, só não saberia precisar lugares.
Grande abraço e sinta-se a vontade quando tiver alguma dúvida, em me consultar.
Pio Rambo

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bissie Gelô: Mit Hunnad un Secs Ioa

Hea das graveadne chteck do hia: Ouça esta história gravada aqui:

        Bissie Gelô
    Mit Hunnad un Secs Ioa


    So wi di iore lóofe kann ma iedes mohl meh sihn das di lait lenga lewe.
    Es is grohsódich wi di lait lenga lewe haitsestóohe als fríasch. Wi ich ene klene guri wóod, dan hot es gehéest das ma mit fênneftsich ioa alt weat. Wenn en person mit meh wi fênneftsich ioa geschtorreb is, dann hot es gehéest una de lait:         - Och, de wóod io óoch schon alt! De is fon êlltatum geschtorreb!
    Dann, di person nêewa ihnem antwort:
    - Soll uns Gott hellfe das mea óoch so wait komme!
    Awa haitsestóohe, sin mea chon iore meh iwa fênneftsich un chpêere als das lebe noch am óngang is, un das ma noch fênneftsich ioa lewe kann.
    Do hot alles sich geénnat. Dorrich di meditsin un dorrich es equilibriatnes esse, sen mea komm an de punkt das ma laicht iwa achtsich ioa kommt. Wenn ene dann chtérrebt mit fênneftsich ioa, sóon mea: "Och, de is doch so iung gechtorreb!"
    Un so, mit de tsaite un dôrrich di tóoche, léeft es lewe un bringt ieda tsait meh lait mit wo sin meh wi achtsich ioa alt, foll gesunthéd un foll luste am lewe.
    Ene fróind fon mea sóod mohl fa mich das di lait wo gesuntlich alt wérre sin di wo kéhn bang hon fa de tecnologii mit gehn un khéen angst honn de naichkéede mit gehn.
    Un das is en woahéed. Di lait wo mit computadoa ummgehn, wo saine celulóa honn un wisse meh als nohre telefonire, di sinn so enngepakt mit de tecnologii, das di bessa es lewa waita bringe, un so lenga lewe.
    Un noch, do sinn di debai wo iwa hunnad ioa gehn, un passe góned uf uf es esse un uf sain lewe. Dann, doktre fawunnre sich iwa das di béessia un di fêttacha wo so wait komme, ohne sich bekimmre mit was se gemacht honn oda was se gêss honn.
    Fa se tsaiche wi das kimmt, is do das chteck fon dem alt béessie wo Leonilla gehéest hot. Es wód en chamant un frêhlich fréeche, wo chon an unnad un secs ioa komm wód. Si wód noch gehénntniss foll un hat en familie wo si mechtich in ehere imma gehall hat.
    Leonilla, das wód aigentlich ene eksempel fon en fróo wo sain ganses leben gebaut hot iwa di familie, iwa di comunited un iwa di ehere des fróindschaft un sain familie.
    Unn, wall sain familie sich óoch bekêmmad honn mit de bóos fonn meh wi hunnad ioa, honn se gehetst si soll, so wi es chon an de letste iore passiad is, bai de dokta gehn un sich consultire um sihen ob noch alles richtich weat.
    Si hot es empfang un is bai de dokta, fill meh iunga wi si, kennt bis en engelche fon ihnem sinn dorrich di unnschitt des iore. Ea hot dann tsu si foageschrib en hauffe eksóome um en bild mache fon sain gesunthéed.
    Si hot di ganse eksóome gemach, un wi alles féttich wód, do is si nochmol bai de dokta un hot di eksóome gestsaicht. De dokta hot di eksóome unnasuucht, un wi ea alles gesihn hat hot ea gemennt:
    - Filaicht tust du fill chmalts benutse.
    - Iawohl! - Antwort si. - Ich mache bohne, rais, flaisch un katoffle, alles mit chmalts.
    - Filaicht tust du óch fill tsukka benutse.
    - Iawohl! - Antwort si. - Ich mache kokos siis, bowre siis, millich siis, faiche siis, un frucht salód, alles mit tsukka.
    - Wust du das de tsukka un das chmalts chóode mache? - hot de dokta gefrod.
    - Gewiss! - Sód si.
    De dokta chpricht waita:
    - Ich honn óch do gesihn das du fill mehl benutse tust. Is das woa?
    - Iawohl! - Antwort das hunnad un secs iêrich béessie. - Ich backe brod mit mehl, chmalts, salts un tsukka, debai noch ferment, un di nochbaschleit wolle all en proofie fon dem brod honn.
    - Un dann wett noch salts debai gemischt! - Sód de dokta.
    - Io! - Sód di bóos. - Brod ohne tsukka un ohne salts is wi en flaisch ohne chmalts: es chmekt net. ...Awa wi host du alles das gesihn?
    - Ai dorrich dain eksóome. Ich honn gesihn das do tsu fill schmalts, tsukka un mehl in deinem kerwe sitst. Is alles tsu hoch. Un recomendire dich kreftich das du es schmalts, de tsukka un das mehl uf sait lost fa noch phóo meh ioa lewe.
    - Ah so? - Sód das alt béessie. - Soll ich dan wercklich das chmalts, de tsukka un das mehl uf sait losse fa lenga lewe?
    - Richtich so! - Sód de dokta.
    - Chpassich! - Sóod das béessie. - Du bist chon de fênefte dokta wo mea das sêlwiche sód. Di annre fia wo mea das gesód honn, honn ich schon foa lange ioore gehollef beédiche.
    (Ieda enlichkaite sin nua cointsidense).

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    TRADUÇÃO:

    Meias verdades

    Com cento e seis anos

    Assim como os anos correm cada vez se vê que as pessoas envelhecem mais.
    É impressionante como as pessoas vivem a mais hoje em dia em comparação com antigamente. Quando eu era um garoto, diziam que com cinquenta anos se era velho. Quando uma pessoa falecia com mais de cinquenta anos a conversa entre as pessoas soava assim:
    - Ora, ele já era tão velho! Ele morreu de velhice!
    Então, a pessoa que estava  ao seu lado respondia:
    - Que Deus nos ajude chegarmos também tão longe!
    Mas hoje em dia, já passamos dos cinquenta e sentimos que a vida ainda está no começo e que ainda poderemos viver mais cinquenta anos.
    Tudo mudou. Através da medicina e da comida balanceada chegamos no ponto onde facilmente passamos dos oitenta anos. Então quando alguém morre com cinquenta anos, nós dizemos: "Ora, ele morreu tão jovem!"
    E assim, com os tempos e através dos dias, a vida corre e trás sempre mais pessoas que passam dos oitenta anos de idade, cheias de saúde, cheias de entusiasmo e vida.
    Um amigo meu um dia me disse que as pessoas que envelhecem com saúde são as que não têm medo de acompanhar a tecnologia e que não se angustiam em acompanhar as novidades.
    E isto é uma verdade. As pessoas que lidam com computador, que tem seu celular e sabem tirar dele mais do que só telefonar, estão tão engajadas com a tecnologia a ponto de levarem a vida com mais qualidade e viverem mais.
    E ainda, juntam-se a eles aqueles que passam de cem anos e não cuidam o que comem e de sua vida. Então, doutores se impressionam das velhinhas e velhinhos que chegam tão longe sem se preocuparem com o que fizeram ou o que comeram.
    Para mostrar como isto acontece, tem a história daquela velhinha que se chamava Leonilla. Era uma senhora simpática e alegre, que já chegara aos cento e seis anos. Ela ainda estava com a mente em sã consciência e tinha uma família que estimava muito.
    Leonilla, na realidade era um exemplo da mulher que construiu sua vida em torno da família, na comunidade e pelo orgulho da amizade de sua família.
    E porque a família também se preocupava com a saúde da velhinha centenária, faziam com que ela fosse, assim como aconteceu já no ano anterior, se consultar com um médico e fazer um checkup.
    Ela aceitou e foi ao médico, aliás bem mais jovem que ela, pudesse até ser seu neto pela idade. Ele então lhe prescreveu uma bateria de exames a fim de fazer um retrato de sua saúde.
    Ela fez todos os exames, e quando estava tudo pronto, retornou ao médico e lhe mostrou estes exames. O doutor os examinou e após ver todos os resultados, disse:
    - Talvez você esteja usando banha demais.
    - Sim! - Respondeu ela. - Faço feijão, arroz, carne e batatas, tudo com banha.
    - Talvez você também esteja usando açúcar demais.
    - Sim! - Respondeu ela. - Faço doce de coco, doce de abóbora, doce de leite, doce de figo e salada de frutas, tudo com açúcar.
    - Sabia que o açúcar e a banha fazem mal? - Perguntou o doutor.
    - Certamente! - Disse ela.
    O médico continuou falando:
    - Também vi que você usa muita farinha de trigo. É verdade?
    - Sim! - Respondeu a centenária. - Asso pão com farinha de trigo, b anha, sal e açúcar, junto ainda com fermento e os vizinhos todos querem uma provinha deste pão.
    - Então ainda acrescenta sal! - Disse o doutor.
    - Sim! - Disse a velhinha. - Pão sem açúcar e sem sal é como carne sem banha: não tem gosto. ...Mas, como você viu tudo isto?
    - Através de seus exames. Eu vi que você tem muita banha, açúcar e farinha acumulado em seu corpo. Todos os índices estão muito altos. E recomendo com firmeza que você abandone a banha, o açúcar e a farinha para viver mais alguns anos.
    - Ah é? - Disse a velhinha. - Devo então realmente deixar de lado a banha, a açúcar e a farinha de trigo para viver mais alguns anos?
    - Certamente! - Disse o doutor.
    - Engraçado! - Disse a velhinha. - Você já é o quinto médico que me diz a mesma coisa. Os outros quatro que me falaram isto, há muitos anos atrás participei de seu enterro.
    (Qualquer semelhança é mera coincidência)
    




domingo, 4 de dezembro de 2011

Interessante Matéria sobre o Hunsrickisch e Walachai

 
O dialeto esquecido

Comunidade no sul do país usou português para completar as lacunas do dialeto alemão que usa há mais de 180 anos.
Edgard Murano
 


No Rio Grande do Sul, a 100 quilômetros de Porto Alegre, fica Walachai, um povoado de origem alemã que sempre viveu à margem. Na pequena comunidade rural, localizada na Serra Gaúcha, as pessoas falam um dialeto alemão chamado Hunsrückisch - também conhecido como "hunsriqueano" - e ainda vivem como se vivia cem anos atrás. Não por acaso, Walachai quer dizer "lugar distante, onde o tempo parou" em alemão antigo, expressão que faz jus ao seu clima bucólico.
O dialeto hunsriqueano, com origem na região do Hunsrück, no sudoeste da Alemanha, é uma das línguas minoritárias mais faladas no Brasil. Por "língua minoritária" entenda-se o idioma de uma minoria étnica situada numa dada região. O dialeto hunsriqueano representa uma das trinta línguas trazidas ao país por imigrantes, ao lado de aproximadamente 180 línguas indígenas existentes no Brasil. Embora não haja um levantamento preciso sobre o número de pessoas que falam o dialeto, sabe-se que estão espalhados em 38 localidades, a maioria no sul do país - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - onde os primeiros alemães se concentraram, no início do século 19.

Arcaico
O distrito de Walachai ficou conhecido quando um professor local, João Benno Wendling, decidiu registrar a história de seu povoado em livro, ao qual teve acesso a diretora de cinema Rejane Zilles, natural da cidade.
Foi o bastante para que ela resolvesse transformá-lo no documentário O Livro de Walachai (2007), mais tarde retomado no longa-metragem Walachai (2009), exibido na 33ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro passado. Wendling dedicou toda sua vida à alfabetização em português das crianças do distrito, e suas anotações, mais de 400 páginas escritas à mão, formam um relato minucioso da cultura e dos costumes locais.
- Fiquei comovida com a dedicação abnegada deste homem, que durante nove anos, sem nenhum auxílio, se dedicou a registrar a história do nosso povoado. Percebi que tinha ali um ótimo roteiro, mas o tempo urgia, pois o professor na época já tinha 82 anos e a saúde debilitada - conta Rejane.
O hunsriqueano é uma espécie de alemão arcaico, recheado de expressões que não encontram mais equivalência na língua alemã atual. Esse dialeto vem sendo transmitido de geração em geração desde a chegada dos primeiros imigrantes alemães, há mais de 180 anos. Por ser essencialmente falado, o hunsriqueano praticado no Brasil não dispõe de uma escrita sistematizada, valendo-se, normalmente, do chamado alemão-padrão (Hochdeutsch) e do português para o registro.

Identidade
O professor Cléo Altenhofen, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que são frequentes e notórios os juízos de valor depreciativos sobre as línguas minoritárias, em especial aquelas orais, caso do hunsriqueano.
- Essa condição de dialeto, situado abaixo da norma padrão, e de língua marginal submissa à língua oficial, o português, aliada à posição social dos imigrantes, tem dado margem a depreciações do Hunsrückisch, incluindo atributos como verlorene Sproch ["língua perdida"], vebrochne Deitsch ["alemão quebrado"] ou Heckedeitsch ["alemão do mato"] - diz Altenhofen.
O professor destaca o valor social do dialeto.
- Uma língua significa muito mais do que uma lista de palavras ou de regras gramaticais. É também um sinal de identidade - justifica.

Empréstimos
A diretora Rejane Zilles sentiu na pele, durante uma viagem pela Alemanha, o peso da identidade e o "anacronismo" do dialeto de Hunsrück em relação ao alemão culto.
- Cheguei a Berlim falando apenas o dialeto. Eu me sentia quase um "objeto antropológico". As pessoas tinham enorme curiosidade para saber de onde vinha esse alemão que eu falava e me diziam ser curioso ouvir uma pessoa jovem usando expressões tão antigas - diz ela.
Essa cultura própria, independente da matriz alemã, se evidencia nas influências do português sobre o hunsriqueano. Muitas palavras foram tomadas de empréstimo pelo dialeto devido à falta de conhecimento de suas correspondentes em alemão-padrão. Bom exemplo é "televisão", que não fora inventada à época da imigração. Foi "descoberta" mais tarde só pelo nome que lhe deram aqui no Brasil, ignorando que na Alemanha o aparelho chamava-se Fernseher. Há exemplos de hibridismos: Mais (milho) é de origem alemã, mas não era usada pelo dialeto. Em vez do alemão-padrão Maismehl (farinha de milho), o hunsriqueano criou o termo Milhomel. E de substrato: "guri", "menino" para os gaúchos, vai para o plural hunsriqueano com a flexão (e) do paradigma alemão: Gurie (outros exemplos no quadro ao lado).

Segregação
Regina Zilles diz que, ao rodar o documentário, queria desfazer o mito de que as comunidades alemãs optem pela segregação cultural.
- Muitos acham que "esses alemães" ficam louvando a Alemanha e seus costumes, ao modo das típicas festas de Oktoberfest. É claro que há esse segmento, mas não é a realidade de Walachai, um lugar que conheço de dentro, pois nasci lá. A Alemanha de origem está muito distante para essas pessoas humildes, da qual não sabem nada e nem demonstram interesse em conhecer. Já se criou uma cultura própria e essa sim me interessa revelar - diz.
Há uma real dificuldade, especialmente entre os idosos em Walachai, de falar português. Isso se deve, em parte, à política de nacionalização do Estado Novo (1937-1945). Getúlio Vargas reprimiu o ensino de alemão nas escolas. A proibição, de forma vertical e arbitrária, prejudicou o aprendizado do português, pois os alunos chegavam à escola e não entendiam o que o professor explicava. Mesmo depois de 1939, com a Campanha de Nacionalização do Ensino, o governo não tomou medidas que incorporassem os colonos alemães à cultura brasileira, e o aprendizado de toda uma geração foi afetado.
Durante todo esse tempo, Walachai viveu o limbo de dois idiomas que se cruzam.


   Termos emprestados do português pelo hunsriqueano
HUNSRIQUEANO
PORTUGUÊS
ALEMÃO-PADRÃO
Feschón
Feijão
Bohnen
Fakón
Facão
Buschmesser
Karét
Carreta
Lastwagen
Amesche
Nêspera
-
Past
Pasto
Weide
Makák
Macaco
Affe
Mule
Mula
Maultier
Onze
Onça
Jaguar
Schikót
Chicote
Peitshe
Karose
Carroça
Leiterwagen
Schuraske
Churrasco
Grill
                       Kanelepaum         
      Caneleira
         Zimtbaum