São Sebastião do Caí, Rio Grande do Sul, Brazil

domingo, 4 de dezembro de 2011

Interessante Matéria sobre o Hunsrickisch e Walachai

 
O dialeto esquecido

Comunidade no sul do país usou português para completar as lacunas do dialeto alemão que usa há mais de 180 anos.
Edgard Murano
 


No Rio Grande do Sul, a 100 quilômetros de Porto Alegre, fica Walachai, um povoado de origem alemã que sempre viveu à margem. Na pequena comunidade rural, localizada na Serra Gaúcha, as pessoas falam um dialeto alemão chamado Hunsrückisch - também conhecido como "hunsriqueano" - e ainda vivem como se vivia cem anos atrás. Não por acaso, Walachai quer dizer "lugar distante, onde o tempo parou" em alemão antigo, expressão que faz jus ao seu clima bucólico.
O dialeto hunsriqueano, com origem na região do Hunsrück, no sudoeste da Alemanha, é uma das línguas minoritárias mais faladas no Brasil. Por "língua minoritária" entenda-se o idioma de uma minoria étnica situada numa dada região. O dialeto hunsriqueano representa uma das trinta línguas trazidas ao país por imigrantes, ao lado de aproximadamente 180 línguas indígenas existentes no Brasil. Embora não haja um levantamento preciso sobre o número de pessoas que falam o dialeto, sabe-se que estão espalhados em 38 localidades, a maioria no sul do país - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - onde os primeiros alemães se concentraram, no início do século 19.

Arcaico
O distrito de Walachai ficou conhecido quando um professor local, João Benno Wendling, decidiu registrar a história de seu povoado em livro, ao qual teve acesso a diretora de cinema Rejane Zilles, natural da cidade.
Foi o bastante para que ela resolvesse transformá-lo no documentário O Livro de Walachai (2007), mais tarde retomado no longa-metragem Walachai (2009), exibido na 33ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro passado. Wendling dedicou toda sua vida à alfabetização em português das crianças do distrito, e suas anotações, mais de 400 páginas escritas à mão, formam um relato minucioso da cultura e dos costumes locais.
- Fiquei comovida com a dedicação abnegada deste homem, que durante nove anos, sem nenhum auxílio, se dedicou a registrar a história do nosso povoado. Percebi que tinha ali um ótimo roteiro, mas o tempo urgia, pois o professor na época já tinha 82 anos e a saúde debilitada - conta Rejane.
O hunsriqueano é uma espécie de alemão arcaico, recheado de expressões que não encontram mais equivalência na língua alemã atual. Esse dialeto vem sendo transmitido de geração em geração desde a chegada dos primeiros imigrantes alemães, há mais de 180 anos. Por ser essencialmente falado, o hunsriqueano praticado no Brasil não dispõe de uma escrita sistematizada, valendo-se, normalmente, do chamado alemão-padrão (Hochdeutsch) e do português para o registro.

Identidade
O professor Cléo Altenhofen, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que são frequentes e notórios os juízos de valor depreciativos sobre as línguas minoritárias, em especial aquelas orais, caso do hunsriqueano.
- Essa condição de dialeto, situado abaixo da norma padrão, e de língua marginal submissa à língua oficial, o português, aliada à posição social dos imigrantes, tem dado margem a depreciações do Hunsrückisch, incluindo atributos como verlorene Sproch ["língua perdida"], vebrochne Deitsch ["alemão quebrado"] ou Heckedeitsch ["alemão do mato"] - diz Altenhofen.
O professor destaca o valor social do dialeto.
- Uma língua significa muito mais do que uma lista de palavras ou de regras gramaticais. É também um sinal de identidade - justifica.

Empréstimos
A diretora Rejane Zilles sentiu na pele, durante uma viagem pela Alemanha, o peso da identidade e o "anacronismo" do dialeto de Hunsrück em relação ao alemão culto.
- Cheguei a Berlim falando apenas o dialeto. Eu me sentia quase um "objeto antropológico". As pessoas tinham enorme curiosidade para saber de onde vinha esse alemão que eu falava e me diziam ser curioso ouvir uma pessoa jovem usando expressões tão antigas - diz ela.
Essa cultura própria, independente da matriz alemã, se evidencia nas influências do português sobre o hunsriqueano. Muitas palavras foram tomadas de empréstimo pelo dialeto devido à falta de conhecimento de suas correspondentes em alemão-padrão. Bom exemplo é "televisão", que não fora inventada à época da imigração. Foi "descoberta" mais tarde só pelo nome que lhe deram aqui no Brasil, ignorando que na Alemanha o aparelho chamava-se Fernseher. Há exemplos de hibridismos: Mais (milho) é de origem alemã, mas não era usada pelo dialeto. Em vez do alemão-padrão Maismehl (farinha de milho), o hunsriqueano criou o termo Milhomel. E de substrato: "guri", "menino" para os gaúchos, vai para o plural hunsriqueano com a flexão (e) do paradigma alemão: Gurie (outros exemplos no quadro ao lado).

Segregação
Regina Zilles diz que, ao rodar o documentário, queria desfazer o mito de que as comunidades alemãs optem pela segregação cultural.
- Muitos acham que "esses alemães" ficam louvando a Alemanha e seus costumes, ao modo das típicas festas de Oktoberfest. É claro que há esse segmento, mas não é a realidade de Walachai, um lugar que conheço de dentro, pois nasci lá. A Alemanha de origem está muito distante para essas pessoas humildes, da qual não sabem nada e nem demonstram interesse em conhecer. Já se criou uma cultura própria e essa sim me interessa revelar - diz.
Há uma real dificuldade, especialmente entre os idosos em Walachai, de falar português. Isso se deve, em parte, à política de nacionalização do Estado Novo (1937-1945). Getúlio Vargas reprimiu o ensino de alemão nas escolas. A proibição, de forma vertical e arbitrária, prejudicou o aprendizado do português, pois os alunos chegavam à escola e não entendiam o que o professor explicava. Mesmo depois de 1939, com a Campanha de Nacionalização do Ensino, o governo não tomou medidas que incorporassem os colonos alemães à cultura brasileira, e o aprendizado de toda uma geração foi afetado.
Durante todo esse tempo, Walachai viveu o limbo de dois idiomas que se cruzam.


   Termos emprestados do português pelo hunsriqueano
HUNSRIQUEANO
PORTUGUÊS
ALEMÃO-PADRÃO
Feschón
Feijão
Bohnen
Fakón
Facão
Buschmesser
Karét
Carreta
Lastwagen
Amesche
Nêspera
-
Past
Pasto
Weide
Makák
Macaco
Affe
Mule
Mula
Maultier
Onze
Onça
Jaguar
Schikót
Chicote
Peitshe
Karose
Carroça
Leiterwagen
Schuraske
Churrasco
Grill
                       Kanelepaum         
      Caneleira
         Zimtbaum
 
 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Bela reportagem que saiu na tv Alemã, no programa Sammstag Abend:

Veja o video da matéria aqui: guck do hia de video fon dem tema:


Veja o artigo da matéria:
Ca. 1 000 000 Menschen wanderten in den letzten 3 Jahrhunderten aus ganz Deutschland nach Brasilien aus. Jedoch war es der Hunsrücker Dialekt, der sich durchsetzte und den die Auswanderer nun schon in der 7. Generation pflegen und am Leben erhalten.
Vor kurzen besuchten sie ihre Heimat ...

Tradução:

Cerca de 1 000 000 pessoas emigraram nos últimos 3 séculos de toda a
 Alemanha para  Brasil afora. No entanto, foi o dialeto hunsrickisch que sobreviveu e apesar de estarem na sétima geração em descendência, ainda mantém vivo entre eles.
Há pouco tempo visitaram sua terra natal...

domingo, 27 de novembro de 2011

Nova Colunista: Chteka von dea tsait wo ich klêen wód - Isolde Marx

Comentário:

Fiquei muito feliz e realizado com o comentário feito por esta nova leitora do blog e sua colaboração, para sentirmos de perto que nosso Hunsrickisch está longe de desaparecer. É através de contribuições valiosas como esta da Isolde que podemos sentir de perto que estamos renascendo. E se você tiver uma história, conte ela! Se não souber escrever em hunsrickisch, adapto para nosso blog.
Obrigado Isolde pela coragem e a boa vontade em contribuir. Espero que este seja o primeiro de muitos artigos.

Gontach, prime Pio

Krót hon ich gesiin dass ich dea noch ken antwort gechikt hat, tut mea laid. Ich wohne iets chon fier iôa in Joinville, hat áwwa foahea meh als draissig iôa in São Paulo gelebt. Ich hat mea als fierzich iôa nore gans gans selde mol platt daitsch gesprôch und hon ach noch net fill dii gelegehéd. Platt se chraiwe fange ich krót eascht óon un wêes noch net so richtich wii ich es chraiwe soll. Dórrich daine blog hon ich krót gesiín, dass es chon en sistem gibt, áwwa ich mênne es soll doch noch ebbes met dea daitche chrift se tôon hon. So wii du chraibst gefellt mea am beste.
Beste griisse un noch en chêne sôntach.
Isolde


Boa tarde, primo Pio
Recentemente eu vi que ainda não havia enviado resposta, sinto muito. Moro agora há quatro anos em Joinville e vivi antes disto, mais de trinta anos em São Paulo. Durante quarenta anos raras vezes falei o alemão Hunsrickisch pois não tive muitas oportunidades. Escrever o dialeto a recém estou iniciando e não sei se estou escrevendo certo. Através do teu blog fiquei sabendo que já existe um sistema (de escrita) mas espero que tenha algo a ver contigo. Assim como tu escreves é o que melhor me agrada.
Estimadas lembranças e ainda um ótimo domingo.
Isolde




Chteka von dea tsait wo ich klêen wód
                          Isolde Marx

Ich wód noch uf dea alt colonii guebôa, awa wii ich siwe monat alt wód, do sinn de papai un di mamai met mea in Sanda Catarina guevánnat und dót is de ganze tropp khenna dann nô komm bis die familhe fétich wód. Dót hon die lait óoch daitsch gechproch. Awa net so wait wech von uns wód en italiener gemaind, deshaleb hot de phóda sôntachs in de kérrich imma uf daitsch un uf brassiliónich gepredicht. In selwicha tsait hot ma brassiliónich earscht chpreche gelénnt wenn ma in di chuul
gang is. Awa ênmol hat ich doch en póo wétta brassiliónich ráuskriit. Das wód sôo: Mea hare en nôchba, de konnt óoch daitsch chpreche, hat awa en italiener frómench guehairat un desweche konnte denne ere khenna kêen daitsch. Di hare êmol en tsait lang kêen khuu un di khenna sinn desweche jede móind bai uns die millich hôlle komm. Êne sôntach móind wód de papai un di mamai mit dem nenne in die kérrich guefóo, ich un maine andre bruda musste de hemm blaive. Ich denke ich wód so fênef iôa alt un de bruda wód noch klêner, mea hon foam haus gechpillt. Dô komme uf êmol die nôchbas khenna. Ia, di mamai wód net dô um ich wód noch zu klêen fa denne di millich se gêwwe. Ia, mea hon ênfach dô guechtánn, di khenna hon net met uns guespillt, sin awa ach net fott gang. Das wód mea uf êmol so halwa chpassich, do hon ich di curój kriit un hon guesód: “mãe missa”. Wáachainlich hat ich die wétta fom phóda in de kérrich gueheat, es háupste wód awa, di khenna hon das fachstánn un sin hemm gang. Mea hon denne dann speter di millich hin guebrung wii di mamai hemm komm is.

De papai konnt so bíssie brassiliónich chpreche um hot ach álsmo met de italiener guechproch wenn dii bai uns am wech dórrich komm sinn. Êmol, ich wês nimme obs foa de kéreb wód ora foa ôstre, do hat ma io kuche se bágge, awa mea hare grót net guenuuch óia, desweche is main bruda bai di vôvo gechickt geb fa óia se hôlle. Do is dee grót met em kérebche fôll óia an de wêech komm, do kommt en italiener met em blumiche himd uf em gaul. De hat de papai io guekénnt un wollt mainem bruda en carona uf em gaul guêwe, hot awa natealich uf brassiliónich guechpróch. De bruda hot awa sôo en bang kriit, de hot das kérebche met samt de óia wêch guewórref um fott wód ea. Di óia fa de kuche wóre natêalich óoch fott.

Êmol háre de papai und di mamai foa de kéreb ene ganse engradóde foll flache gassose kóft. Hot noch iemand fon aich fría gassose guetrunk? Awa wii die kéreb komm is, wóre die gassose flache all fadórreb. Das wód sô gewês: maine tswérriche briida wóre en tóch mol alêen de hemm, do hon se fon ieda flach en bíssie getrunk, dass nímmand was mergue sollt. So must de papai dann fa di kérreb naie gassose kóofe.

Foam esse hot ma natêalich imma guebêt, óoch wenn mea khenna net imma alles fachtánn hon, tsum baichpill: “O mein Gott un Herr ich glóve alles vas Du offenbart hast”. Do hon ich êmolgefrôt: “ia, was hot de hérrgott dann uf em bóod?”

Ich wêss net, hat ma uf de alt colonii óoch françose uf de plantój? Das wód en únkraut wo ma in de ross net lôss guêwe konnt, das hot guebliit un fill sôome gemacht um glaich wód alles foll fon dem. Uf brassiliónisch hêsst das buva. Wii ich klêen wód hat ich net guewusst dass françose ene francês is. Eascht khétslich hon ich en bíssie iwa de hunsrick studíat, in dea internet, wêsste, do kann ma haitso tóch io nêxt alles lénne, guéll? Do honn ich êmol guelês wii die françose, di wo in França
wôone, imma un imma de hunsrick invadiert hon, desweche hare di lait di françose net guénn und hon geche die lutiert. Awa eb se wech gang sinn, hon die françose imma alles fabrênnt und kaput guemacht. Do is es mea eascht ínnguefall, dass di daitsche hia, wii se di buva net loss wérre konnte, wáchainlich so guesót hon: “Grót so wi di françose, die kánnste ruich áushácke ore áusrobbe, di komme awa doch nômmo”. Was denkt dea denn de von? Mecht das so guewên sin?


TRADUÇÃO:

Histórias do tempo quando era criança.
                          Isolde Marx

Eu ainda nasci na velha colônia, mas quando tinha sete meses, meu pai e minha mãe se mudaram comigo para Santa Catarina, e lá vieram depois a tropa de crianças até a família estar completa. Lá também as pessoas falavam alemão. Mas, nem tão distante de nós tinha uma comunidade italiana e por este motivo o padre fazia os sermões de domingo em alemão e português. Naquela época se aprendia a falar o português só quando se ia para a escola. Mas, de repente, consegui arrancar algumas palavras em português. Isto foi assim: nós tínhamos um vizinho o qual também sabia falar alemão, mas ele casou com uma italiana e por este motivo seus filhos não falavam alemão. Certa época eles ficaram um tempão sem ter uma vaca e por isto seus filhos vinham todas as manhãs lá em casa pegar o leite. Certo domingo de manhã, o pai e a mãe, juntamente com o nenê foram à missa e eu e meu irmão tivemos que ficar em casa. Acredito que eu tinha uns cinco anos e meu irmão ainda era mais novo. Ficamos brincando na frente de casa. De repente apareceram os filhos do vizinho. Sim, a mãe não estava aí e eu era muito pequena para dar o leite às crianças. Nós estávamos aí parados, os filhos do vizinho não brincavam conosco, mas também não iam embora. Isto me ficou meio estranho, até que criei coragem e disse: "mãe, missa!" Talvez eu tenha ouvido estas palavras do padre na igreja, mas o mais importante foi que  as crianças me entenderam e foram para casa. Então mais tarde levamos o leite até eles, quando a mãe havia retornado.

O pai sabia algumas palavras em português e falava de vez em quando com os italianos quando eles passavam na rua na frente de casa. Certa vez, não lembro se foi antes do kerb ou da Páscoa, então se assava cucas. Mas, nos faltaram ovos, então meu irmão foi enviado para a casa da vó para pegar mais ovos. Então, quando voltava, encontrou na estrada um italiano a cavalo com uma camisa florida. Ele conhecia o pai e quis dar uma carona no cavalo, mas, naturalmente, falou em português. Meu irmão se assustou, atirando longe o balainho com os ovos. E lá se foram os ovos (da cuca).

Certa vez o pai e a mãe compraram um engradado de gasosas para o kerb. Alguém de vocês tomou gasosa antigamente? Mas quando chegou o kerb, as garrafas de gasosa estavam estragadas. Foi assim: meus irmãos moleques ficaram uma vez um dia sozinhos em casa, então tomaram um gole de cada garrafa para não dar na vista. (Todas estragaram) Então meu pai teve que comprar novas gasosas para o kerb.

Naturalmente, antes das refeições sempre se rezava, mesmo que nós crianças, às vezes não entendíamos tudo, como por exemplo: "Ó meu Deus e Senhor, eu acredito em tudo que tens oferecido!" Então, certa vez perguntei: "O que Deus tem sobre a barba?" (ela havia entendido o termo: offenbart {oferecido} como sendo of em bóod {sobre a barba}.

Não me lembro, mas na velha colônia também havia franceses na roça? Isto era um inço que a gente não conseguia tirar da roça. Isto florescia, tinha muitas sementes e logo tudo estava minado com este inço. Em português se chama buva. Quando eu era pequena não sabia que os franceses eram os Franceses. Recentemente estudei um pouco sobre Hunsrück e então li que os franceses os nativos da França, sempre e sempre invadiam o Hunrsrück e por este motivo as pessoas não gostavam dos franceses e lutava contra eles. Mas antes que os franceses fossem embora, sempre queimavam e derrubavam tudo. Então caí em mim o porquê do nome deste inço, porque quando não conseguiam se livrar do buva diziam: "Que nem os franceses, pode arrancar ou capinar, eles voltarão." O que acham? Foi realmente assim?




domingo, 13 de novembro de 2011

Direito de Resposta do IPOL

Prezados leitores do Blog,
Tive um pedido de resposta sobre um artigo escrito e elaborado pelo Jornalista Ozias Alves Jr. do Jornal Biguaçu em Foco, de sua inteira responsabilidade, o qual transcrevi aqui no blog por achar ele ser de interesse coletivo. Mas, como veremos abaixo, algumas afirmações no artigo não são exatamente descritas como deveriam ser, gerando portanto algumas inverdades, rebatidas neste email do IPOL (Instituto de Políticas Linguísticas), o qual transcrevo literalmente aqui, abrindo espaço para direito de resposta. 
O link do artigo original está aqui:


Florianópolis, 12 de novembro de 2011.

Prezados Senhores,
Recentemente tomamos conhecimento do texto Uma escrita para a língua Hunsrickisch: qual o melhor caminho? de autoria do Sr. Ozias Alves Jr., publicado em 2 de maio de 2011 pelo Jornal Biguaçu em Foco e reproduzido na mesma data pelo Blog http://hunsrickisch.blogspot.com cujo responsável é o Sr. Pio Rambo. Neste texto, o autor cita e comenta a atuação do IPOL no Município de Antônio Carlos, Santa Catarina, divulgando infromações inverídcas. Diante da gravidade da situação, solicitamos que seja publicado, como direito de resposta, o texto que segue (no corpo do email e também em anexo), em que esclarecemos ao público em geral e a nossos parceiros, em particular, pontos de equívoco da referida matéria, sobretudo quanto ao trabalho que o IPOL desempenha.

1. Em relação à questão posta pelo jornal:

“Uma Escrita para o Hunsrück: Marcando Bobeira?. Dirigido ao secretário de educação de Antônio Carlos, Fábio Egert, e ao vereador Altamiro Kretzer (PT), autor do projeto de lei aprovado em setembro do ano passado transformando o Hunsrück no segundo idioma oficial daquele município, o artigo visou levantar uma questão importante: se a gente ficar dando importância a instituições universitárias, não sairemos do lugar.

Explico-me melhor: Fábio Egert disse-me, en passant, que a prefeitura estava negociando com o IPOL (Instituto de Políticas Linguísticas) um projeto para a elaboração de pedagogia e escrita para o idioma.”

1. Informamos que:

O IPOL não é instituição Universitária. É um Instituto que atua na promoção de políticas públicas para as línguas brasileiras, reconhecido pela sua atuação desde 1999 e cujo estatuto e atividades podem ser consultados no site www.ipol.org.br

O IPOL é uma instituição que atua em parcerias, prezando pela execução dos programas de trabalho. Em relação a Antônio Carlos, não houve nenhum programa acordado para elaboração de escrita do Hunsrück. O Instituto teve a honra de, a convite do Vereador Altamiro A. Kretzer e do Sr. Secretário da Eduação, Fabio Egert, atuar na promoção de audiências públicas visando a co-oficialização do Hunsruck. A discussão sobre a escrita é de direito da comunidade linguística de Antonio Carlos, que tem autonomia para assumir a posição que melhor atenda suas expectativas. O IPOL entende que o melhor caminho para a escrita da língua em Antonio Carlos é parte constitutiva da política linguística conduzida pelo Município. Certamente o Município poderá, para essa nova fase, continuar contando com a participação do IPOL tendo em vista sua qualificação técnica e sua comprovada experiência na área.

2. O referido texto publicado afirmou também:

“Professor Gilvan Müller de Oliveira, presidente do IPOL, é contra o sistema de escrita elaborado pela dra. Ursula Wiesemann, adotado pela cidade de Santa Maria do Herval (RS). Respeito sua posição, mas para fins práticos, o melhor sistema para Antônio Carlos é adotar a escrita de dra. Ursula. Os motivos são óbvios: é simples, prático, não precisa ser ensinado e é GRATUITO.

Temos de ser mais práticos para sair do “atoleiro”

REFLEXÃO- Temos de tomar muito cuidado com universidades. Eles falam bonito, cheio de citações aqui e acolá, mas têm um grave defeito: não são práticos e custam caro.

O assunto dá um livro, mas tentando resumir em rápidas palavras: o pessoal de universidade está mais preocupado em produzir dissertações de mestrado e teses de doutorado do que em questões práticas.

Dou um exemplo. Existe um professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul chamado Cléo Altenhofen. Este cidadão é considerado o maior especialista no idioma Hunsrück. Em 1996 ele publicou sua tese de doutorado, um calhamaço intitulado “Hunsrückisch in Rio Grande do Sul. Ein Beitrag zur Beschreibung einer deutschbrasilianischen Dialektvarietät im Kontakt mit dem Portugiesischen” (Tradução: O Hunsrück no Rio Grande do Sul: Descrição de uma variedade dialetal alemã em contato com o português).

Este professor, muito ligado ao citado professor Gilvan Müller de Oliveira, faz parte de um grupo de “especialistas” que defende uma escrita para o idioma com poucas variações com relação à escrita tradicional alemã.

Bonito, ótimo e maravilhoso. Mas espera aí. O que de prático o professor Altenhofen trouxe para as comunidades falantes de Hunsrück? Por acaso, já publicou um livro explicando sua escrita e distribuiu às comunidades? Já escreveu um dicionário tão necessário para o desenvolvimento da pedagogia desse idioma? Já traduziu algum livro de literatura interessante nesta língua, que a domina muito bem certamente, para incentivar o aparecimento de “bibliotecas” neste idioma?

Essa turma produz calhamaços e mais calhamaços de estudos, mas nada de prático para ajudar as comunidades Hunsrücker a desenvolver o uso escrito do idioma e outras atividades necessárias para sua divulgação.”

2. Informamos que:

Uma vez que não houve proposta para elaboração de escrita por parte do IPOL, a afirmação acima constitui uma falácia. A menção pública de opinões de pessoas também públicas e conhecidas como o Sr. Gilvan Muller de Oliveira e o Sr. Cléo Vilson Altenhofen devem ser validadas por elas, a custo de estarem, os jornais, incorrendo em difamação. Neste caso, constitui lei de imprensa que o Sr. Cleo e o Sr. Gilvan respondam neste jornal a estas acusações que lhes são dirigidas. No caso da menção dos modelos de escrita pelo IPOL durante audiências, o Sr. Ozias claramente confunde a menção às propostas existentes como forma de abertura de um debate junto à comunidade, com defesas e acusações que não existiram, exceto no texto que ele publicou.

3. Quanto à proposta de trabalho para Antônio Carlos, os referidos meios publicaram:

“Explico-me melhor: Fábio Egert disse-me, en passant, que a prefeitura estava negociando com o IPOL (Instituto de Políticas Linguísticas) um projeto para a elaboração de pedagogia e escrita para o idioma.

Até aí, nada demais. Afinal, como o Hunsrück já é o segundo idioma oficial da municipalidade de Antônio Carlos, é preciso avançar e a meta é oferecer um dia alfabetização neste idioma nas escolas públicas daquela cidade.

Então, Fábio falou que o preço do trabalho (ou do início do mesmo) estava entre R$ 20 mil ou R$ 30 mil, não me recordo direito. Humm! Também nada contra, mas espera aí: entidades universitárias não levam a lugar algum.”

3. Informamos que:

A Secretaria da Educação de Antonio Carlos solicitou ao IPOL uma proposta, portanto, um instumento de negociação, e esta contempla outros focos de promoção da língua que nada têm a ver com a escrita do Hunsrück. A publicação de informações aleatórias, descontextualizadas e sem comprovação constitui ação de agravo moral e desrespeita a ética com que o IPOL sempre conduziu suas parcerias. Diante desse quadro, o IPOL solicita esclarecimentos sobre os valores expostos e seus usos, para que haja um aclaramento sobre as afirmações que precedem, uma vez que atingem a imagem do Instituto.

Considerando que proporcionar a circulação de informações corretas é a função primeira de qualquer órgão da imprensa, solicitamos que os referidos jornais publiquem as correções que fizemos acima, na íntegra. Consideramos ainda, que essa publicação é um direito de resposta garantido ao IPOL diante da ação difamatória de que foi alvo.

No aguardo de confirmação de recebimento deste email e da confirmação da publicação imediata do texto corrido, apresento minhas cordiais saudações.

Rosângela Morello
Coordenadora do IPOL

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Canção em Alemão Hunsrickisch - Das Millich Lid


Ouça esta canção aqui: Hea das lid do hia:



    HUNSRICKISCH                                 PORTUGUÊS


Das Millichlid                                         A Canção do leite
      Banda San Diego                             Banda San Diego


(geschproch: "So, Pheda, komm       (falado: "Assim Pedro, vem agora
iets bai uns un sing moh das           conosco e cante uma vez a canção
millich lid foa!" "Mach's                   do leite!" "Apresente a canção
millich lid foa!")                             do leite!")  
                                     

Bai uns in Ivoti                            Conosco em Ivoti                          
Da is en chteck passiat                Aconteceu uma história
Da honn di lait das wassa             Onde as pessoas misturavam
In di millich renn gerriat.               Água no leite.
Auf ene gute tag                         Um belo dia
Hot de Kohla reclamiad                  O leiteiro reclamou
Do honn se'm's gesicht geschpritst  Então o esguicharam em seu rosto
Do wóora gans beschmiad.            Então ele estava todo enlambuzado.

Da unne an de bricke                   Lá embaixo nas pontes
Da wohnt di Puhle frau                 Mora a senhora Puhl
Das di ia imma wassa chitt           Que ela sempre mistura água
Das wais'mir gans genau.             Isto sabemos exatamente.
Di frau di kann io ehrem sinn         A mulher parecendo honesta
Das geht io grad so chehn            Fazia tudo andar perfeitamente
Bis ene gute morgen                   Até que numa bela manhã
Las de Kohl di millich chtehn.        O leiteiro deixou o leite pra trás.

Holladiri, holladira                       Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
Holladiri, holladira                      Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
Un chitt noch wassa tsu.           E ainda acrescenta água.

Da gehn se bai de Milla hinn        Então foram até o Müller
De hot se nett' gefuhr:          Ele os instruiu com sabedoria:              
De sóod: "fakóoft dain wassa       Ele disse: "continue vendendo     
Nua waita bai de kohl."              Sua água para o leiteiro."
De kohl de wollt se all ni meh      O leiteiro não queria mais nada
Wall di war tsu chwach              Porque ele (leite) era muito fraco.
Was is dan dróon se mache?       O que se pode fazer?
Di chuld das wóod di bach.         A culpa era do arroio.

De kohl de hat gesacht              O leiteiro disse
Es hett ia niks gemach              Que não tinha problema
Wenn's blohs en bissie wassa weat/Se fosse só um pouquinho d'água
Het ea niks gesacht.                 Ele não diria nada.            
Do so eine geschichte               Uma história como esta
Das wóod em doch tsu grohs:      Para ele extrapolou:
Di fró hot bissie millich               A mulher tem pouco leite
Un das gassblech ima foll.           E a lata sempre cheia.

Solo (geschproch: "Das wóo        Solo (falado: "Isto era uma vez
awa mohl di millich!")                  o leite!")

Bis eine gute morgen                  Até que numa bela manhã
Da komm de kohl dort hinn           O leiteiro chegou lá
Un wollt di millich probe              E queria experimentar o leite
Un di fróo hot das gesihn            E a mulher viu isto
Di frau di hot mi'm kopp geschaft   A mulher usou a cabeça
Si bring di millich raus                 Trouxe o leite para fora
Un losst sich da mit falle             E se deixou cair com ele
Un chitt si alle aus.                   Derramando tudo.

So inn es lange tsait                  Assim num tempo longo             
Do gingt noch immer gut             Tudo ainda ia bem
Bis eine gute morgen                  até que numa bela manhã
Kommt de kohl noch di wut.         O leiteiro enfureceu.
De kohl hot's net meh ausgehall    O leiteiro não aguentou mais
Di frau di wart so frech               A mulher era muito malandra       
Si chitt di millich mit canek          Ela derrama o leite com caneca
Un's wasser mit dem blech.         E a água com a lata.

Holladiri, holladira                      Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
Holladiri, holladira                       Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
Un chitt noch wassa tsu.            E ainda acrescenta água.

Solo (geschproch: "Dem ding no    Solo (falado: "Seguindo, o
honn se de awa tot geaiat!"         mataram de tanto irritar!"
"Sowas is awa dann chlimm!")        "Algo assim é cruel!")

Auf so aine geschichte                Sobre uma história destas          
Do wett ma góoned kluuch           A gente não entende
Ma soll doch selber maine             Deveria se pensar
Das weat doch wi der fluuch         Que isto fosse como praga
De khii do wóod de taiwel             Nas vacas havia o demônio
Sain memm das weat en heks        E as tetas enfeitiçadas
Hot draissich litta millich geb         Pois dava trinta litros
Iets gebt se nohr'me seks.            E agora somente mais seis.

Holladiri, holladira                        Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu               Cada um ordenha sua vaca
En ieda melkt sain khuu               Cada um ordenha sua vaca
Holladiri, holladira                       Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu               Cada um ordenha sua vaca
Un chitt noch wassa tsu.             E ainda acrescenta água.