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Sou o tipo de pessoa incansável. Faço de tudo o tempo todo e gosto de construir resultados. Locutor, apresentador, colunista, escritor e defensor da língua alemã Hunsrickisch, apaixonado pela música alemã e pela culinária, tenho por hobby cozinhar, pintar quadros a óleo e tocar contrabaixo. Eletrotécnico de carreira, me aposentei nesta profissão, e agora, além de manter ainda minha oficina eletrônica trabalho como voiceover internacional em e-learnings e wbt. Amo tudo o que faço.

domingo, 31 de julho de 2011

Leitura Interessante: Tese para formular uma escrita para o Hunsrickisch

www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
L. Käfer; Mário Klassmann; Gerson R. Neumann; Karen Pupp Spinassé

Revista Contingentia, Vol. 2, novembro 2007, 73–87  73
ISSN 1980-7589
Fundamentos para uma escrita do
Hunsrückisch falado no Brasil

1


Cléo V. Altenhofen/Jaqueline Frey/Maria Lidiani Käfer/Mário S.
Klassmann/Gerson R. Neumann/Karen Pupp Spinassé
This  paper  discusses  a  foundation  for  writing  Hunsrückisch  as  a  German
immigrant  language  in  contact with Brazilian  Portuguese.  This  foundation
brings  together  the main conclusions obtained by  the Group  for  the Studies
of Hunsrückisch Writing  (Grupo  de Estudos  da Escrita  do Hunsrückisch –
ESCRITHU).  This  group  was  formed  at  the  Language  Institute  at  the
Federal  University  of  Rio  Grande  do  Sul  with  the  goal  of  proposing  not
only  a  system of orthographic norms  for  a  language  that  exists mostly  just
in oral forms, but also to encourage research on and linguistic education for
speakers  of  this  immigrant  language.  An  already  extant  literature  in
Hunsrückisch  includes  journal  and  magazine  texts  such  as  Sankt
Paulusblatt or  the Brummbär-Kalendar, published between 1931 and 1935,
as  well  as  texts  by  authors  such  as  Rambo  (2002  [1937-1961]),  Gross
(2001),  and  Rottmann  (1889  [1840]).  From  these  texts  various  writing
formats,  guidelines,  and  goals  for  an  orthographic  norm  are  analyzed,  be
they  for  the written  expression of  the  speakers or  for useful  instruments  in
the  transliteration  of  ethnotexts  within  the  ALMA-H  project  (Linguistic-
Contactual  Atlas  of  the  German  Minorities  in  the  La  Plata  Basin:
Hunsrückisch), with which ESCRITHU collaborates.
Key  words:  immigrant  minority  language;  Hunsrückisch;  orthography;  written
language; German teaching.
1 Introdução
  Com  as  discussões  em  torno  da  criação,  no  âmbito  do  IPHAN  (Instituto  do
Patrimônio Histórico  e Artístico Nacional),
2
  de  um Livro  das Línguas Brasileiras,  tem crescido  o  interesse  na  organização  social  das  cerca  de  180  línguas  indígenas  e aproximadamente 30 línguas de imigração faladas ao lado do português, no Brasil. Como uma dessas  línguas do  tipo alóctone ou de  imigração3 mais em evidência, ainda  recaem sobre o Hunsrückisch uma série de tarefas. Uma dessas tarefas advém justamente da sua condição de variedade dialetal  essencialmente  falada, que não dispõe de uma prática e registro escrito sistematizados, função que até hoje tem sido coberta pelas normas cultas do Hochdeutsch e do português. Entende-se, assim, por que o  falante de Hunsrückisch,
apesar de ser esta sua língua materna, sempre cogitou exclusivamente do português ou do
alemão-padrão para a função da escrita, a não ser em situações em que comumente aflora
o desejo de expressão da identidade e da cultura local, como nos texto humorísticos. Um
exemplo  que  ilustra  a  primazia  da  língua-padrão  para  a  função  escrita  são  os
Wandschoner  (panos  para  proteger  parede),  dos  quais  não  temos  conhecimento  de

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exemplar que apresente uma  frase ou ditado no dialeto  local, embora muitas vezes com
algum traço de coloquialidade.
  Neste sentido, pode-se admitir que, ao longo da história do contato alemão-português,
tenha  ocorrido  uma  espécie  de  diglossia,  como  os  lingüistas  chamam  o  uso  de  duas
variedades (alta e baixa) para funções sociais distintas. Isso significa, em outras palavras,
que se falava Hunsrückisch, porém se escrevia Hochdeutsch – a Schriftsprache, ou ainda
popularmente o “alemão gramatical” –, isto é, uma variedade aprendida na escola, com o
auxílio  de  uma  gramática  que  sistematiza  e  normatiza  essa  escrita. Com  a  política  de
nacionalização do Estado Novo  (1937-1945) e a conseqüente  repressão e  retrocesso do
ensino de alemão na escola básica e fundamental, a função de língua escrita passou a ser
assumida pelo português.
  Apesar  dessa  tendência  geral,  é  possível  identificar  um  conjunto  de  textos  em
Hunsrückisch  que  permitem  ao  menos  falar  de  uma  “pequena”  tradição  escrita  nessa
variedade. É verdade que o teor desses textos atende a um apelo fortemente humorístico
sobre um fundo metarreferencial que busca documentar e cultivar um modo de expressão
familiar  e  de  cunho  identitário.  Poderíamos  falar  por  isso  da  existência  de  etnotextos
escritos e de uma visão de mundo que  reflete a cultura do grupo étnico em questão. O
que, no entanto,  falta que  impeça e  justifique uma produção escrita mais significativa e
constante,  onde  antes  só  havia  a  oralidade?  Constitui  uma  premissa  deste  estudo  a
convicção de que cabe atribuir ao dialeto, antes de tudo, o mesmo status de língua a que
têm  direito  o  alemão-padrão  e  o  português  enquanto  línguas  históricas  com  existência
oral  e  escrita.  Isso  implica  naturalmente  a  criação  de  um  instrumento  inicial  de
sistematização dessa escrita, como ponto de partida.
  A  idéia  de  fixar,  ou  melhor,  normatizar  uma  escrita  para  o  Hunsrückisch  tem,
portanto, fundamento no próprio papel que a escrita exerce enquanto forma de expressão
e segue, como  tal, princípios próprios observáveis, por exemplo, na história de  todas as
grandes  línguas  internacionais. Todas  essas  línguas  tiveram, em  seus diversos estágios,
especialmente os  iniciais, variações muito grandes da grafia de uma mesma palavra ou
lexema  e,  só  com  a  prática  e  o  trabalho  de  sitematização  de  estudiosos,  foram
estabelecendo sua norma escrita como a conhecemos hoje.
  O presente artigo reproduz, de certa forma, esse caminho clássico. Pretende-se, com a
consideração da “pequena” tradição, a que já se aludiu, dos estudos existentes, bem como
de  uma  série  de  princípios  previamente  fixados,  propor  um  conjunto  de  normas  que
oriente uma  escrita  sistematizada do Hunsrückisch. Para  tanto,  criou-se no  Instituto de
Letras  da UFRGS  o Grupo  de Estudos  da Escrita do Hunsrückisch  (ESCRITHU) que
tem  por  objetivo  não  apenas  criar  esse  sistema  de  normas,  mas  também  refletir  e
fomentar o estudo e educação  lingüísticas dessa variedade que,  segundo estimativas de
pesquisas,  conta  com  cerca  de  500.000  falantes  só  no  Rio  Grande  do  Sul.
4
  O  grupo
ESCRITHU,  constituído  em  sua maioria por  falantes de Hunsrückisch  e pesquisadores
dessa  variedade  de  contato  com  o  português,  insere-se  no  projeto  ALMA-H  (Atlas
Lingüístico-Contatual  das Minorias  Alemãs  na  Bacia  do Prata: Hunsrückisch),  como
sub-projeto deste (v. ALTENHOFEN 2004).
2 Princípios de ortografia: por onde orientar a escrita do
Hunsrückisch?
  Antes de fixar ou optar por qualquer proposta de registro escrito de uma língua como
o Hunsrückisch, é preciso perguntar sobre os objetivos a que se destina tal escrita. Neste
particular,  podemos  identificar  diferentes  pontos  de  vista,  que  refletem  uma  série  de
dilemas, entre os quais se pode destacar:

1.°)  o  dilema  entre  “o  ideal  fonográfico  (uma  escrita  que  refletisse  regularmente  uma
forma  idealizada  de  pronunciar)  e  o  princípio  ideográfico  (que  opta  por  manter  a
etimologia, a notação das palavras em sua língua original)” (MORAIS 2003, p. 11).  www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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2.°) o dilema entre considerar a vinculação histórica com a matriz lingüística original e o
desejo de se afastar e diferenciar dessa origem, em virtude de uma identidade nova.

3.°) finalidades de leitura (receptiva) e de produçâo escrita (autora).

4.°)  a  finalidade  estritamente  comunicativa  e  prática  versus  o  propósito  didático-
pedagógico, com o intuito de desenvolver a reflexão e educação sobre a língua;

5.°)  definição  de  um  público-alvo  fechado  e  restrito  aos  usuários  da  língua  grafada
membros da comunidade  lingüística ou público-alvo aberto a não-falantes ou membros
de outras comunidades lingüísticas.

  O primeiro aspecto levanta, segundo Morais (2003), questões que vão muito além da
mera  codificação  de  relações  som-grafema.  Se  simplesmente  seguíssemos  a  tese  da
“escrita fonética” (=escrever como se pronuncia), que seus defensores acreditam ser mais
simples,  teríamos  ao  final  mais  de  uma  língua  escrita,  pois  é  diferente  a  natureza
interpretativa do som pelos diferentes falantes, assim como também variam as pronúncias
na  produçâo  oral  dos  falantes.  Conforme  enfatiza Morais  (2003,  p.  13),  “a  perfeiçâo
alfabética é uma ilusão”, seja qual caminho se adote, e “sempre as soluções encontradas
terão sido opções, soluções arbitradas que se transformaram em convenção, lei”.
  Neste sentido, o que o grupo ESCRITHU está propondo vai muito no sentido de fixar
“normas  ortográficas”  por  onde  se  possa  sistematizar  a  escrita  do  Hunsrückisch.
Evidentemente,  essas normas  seguem determinados objetivos  e opções mais  imediatos.
Mas será a recepção pelos usuários e a prática de escrita e leitura pelos falantes e demais
interessados  que  darão  legitimidade  a  essas  normas  de  grafia,  sugerindo  inclusive  as
alterações que couberem. Por esta razão, na tentativa de harmonizar os diferentes opostos
dos dilemas apontados acima, fixamos os seguintes critérios e objetivos:

a) Entende-se  a  escrita, acima de  tudo, como convenção e  regra  sistemática que, como
qualquer  sistema novo que  se  fixe, por mais  simples que  seja, precisa  ser aprendida
(neste  sentido,  importa o  resultado que a  leitura de um  segmento produz oralmente;
p.ex. se fixarmos que Johr ‘ano’ se lê como Rohr ‘cano’, a representação grafemática
do segmento é lida como tal, e não de outra forma, seguindo outro paradigma).
b)  A  proposta  não  se  direciona  apenas  a  falantes  de  Hunsrückisch, mas  pretende  ser
compreensível  também  a  membros  falantes  de  outras  variedades  do  alemão  (uma
escrita  puramente  fonética  baseada  no  português  excluiria  o  público  não-falante
nativo e aumentaria o vácuo entre o Hunsrückisch e o Hochdeutsch, não permitindo
por  exemplo  que  um professor de  alemão  fizesse  comparações  relevantes, para  fins
didáticos).
c) Distingue-se entre as habilidades de escrita e de leitura de textos produzidos de acordo
com as normas fixadas (a primeira certamente exige um grau de letramento e portanto
de familiaridade com o alemão escrito maior).
d) Vale ressaltar que o Hunsrückisch é entendido como “língua” distinta do Hochdeutsch
(alemão-padrão), embora se vincule a ele historicamente e por semelhança lingüística.
Quando  se  adota no Hunsrückisch  traços da  escrita  semelhantes  à do Hochdeutsch,
não  se  está  de  modo  algum  adequando  ou  adaptando  a  forma,  mas  sim  apenas
adotando  uma  convenção  que  atesta  uma  coincidência  de  formas  independentes,
apesar da semelhança.
e)  Não  se  considera  que  o  pré-conhecimento  de  elementos  gráficos  do  Hochdeutsch
esteja totalmente ausente. Pelo contrário, partimos do princípio de que os falantes de
Hunsrückisch  possuem,  naturalmente  em  grau  variado,  alguma  noção  prévia  de
convenções  da  escrita  do  alemão,  desde  sobrenomes  (Schneider, Müller, Neumann, www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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Käfer  etc.)  ou  inscrições  de  topônimos  ou  festas  observáveis  no meio  social,  até  o
acesso a publicações locais em alemão (Familien-Kalender, Sankt-Paulus-Blatt etc.).
f)  A  proposta  tem  por  isso  objetivo  didático,  no  sentido  de  que  visa  não  somente  a
instrumentalizar  o  falante  e  a  nós  próprios  para  o  registro  do Hunsrückisch,  como
também  fomentar a educação  lingüística dos  falantes sobre o papel e  funcionamento
de sua língua materna e de uma língua de modo geral.
g)  Reconhecem-se  pelo  menos  três  grandes  variantes  do  Hunsrückisch,  partindo  da
tipologia de Altenhofen (1996, mapa 6, v. anexo), a saber:

1. Hunsrückisch com traços [+ moselanos] (o tipo com maior número de traços dialetais
que o distanciam do Hochdeutsch): p.ex.  falantes de dat/wat  (predomina na maioria
dos  autores,  como  RAMBO  [1937-1961]  e  BRUMMBÄR-KALENDER  [1931-
1935]);
2. Hunsrückisch com traços [+ renanos] (segundo o estudo de Altenhofen (1996), o tipo
mais  falado):  p.ex.  falantes  de  das/was  (mais  comum  em  SPOHR  [vários]  e  em
GROSS 2001);
3. Hunsrückisch atenuado, com traços mais próximos do padrão: p.ex. falantes de /ai/ em
lugar de /e:/, como em Bein, (mais comum em FLACH 2004).

  O ESCRITHU respeita cada uma dessas variantes como legítimas e toma como regra
que cada autor utilize a sua variante materna, porém com as mesmas normas de escrita de
cada som específico.

h) A proposta destina-se inicialmente às finalidades internas do Grupo, mas, conforme já se
disse, será sua prática e utilização externa, através de uma série de testes e atividades
que,  eventualmente,  podem  ser  realizadas  (p.ex.  workshops,  publicação  de  textos
etc.), que lhe conferirá a eficácia desejada.
i) É uma das  intenções do ESCRITHU elaborar posteriormente um Dicionário  trilíngüe
Hunsrückisch-Hochdeutsch-Brasilianisch  (compreende-se  o  dicionário  igualmente
como instrumento de auxílio para consulta de dúvidas sobre grafia, como comumente
fazemos até mesmo no português e no alemão-padrão).
j) A escrita proposta servirá de base para a transliteração de dados, sobretudo etnotextos,
coletados pelo ALMA-H na rede de pontos do projeto (ao todo, 38).
k)  A  presente  proposta  de  escrita  considera  a  tradição  pré-existente  e  a  vinculação
histórica  e  lingüística  ao  alemão,  de  onde  proveio  (critério  genético). Do  ponto  de
vista  da  gestão  da  língua  pela  comunidade  de  fala,  ao  contrário,  reconhece-se  o
status de brasilidade da  língua de  imigração Hunsrickisch, com  língua brasileira que
adquiriu sua autonomia e traços particulares no novo meio.

  Segue  a  análise  e  discussão  de  alguns  problemas  e  opções  envolvendo  diferentes
aspectos  passíveis  de  sistematização  no  registro  escrito  de  sons  do  vocalismo  e
consonantismo, bem como de aspectos tipográficos e formais. Casos mais problemáticos
e polêmicos, para os quais não existe ainda consenso, serão resolvidos através da prática
de uso das normas ortográficas pelos diferentes usuários.
2 Aspectos tipográficos
a) Substantivos com inicial maiúscula ou minúscula

  Uma  das  primeiras  decisões  que  cabe  tomar  envolve  o  registro  da  inicial  dos
substantivos.  Poderia  alguém  alegar  que  o  uso  geral  de  inicial  minúscula,  como  no
português,  facilitaria a escrita. Outros, porém, como por exemplo aprendizes de alemão
têm  apontado  a  vantagem  de,  na  leitura,  reconhecer  e  identificar  mais  facilmente  os
componentes da frase, na medida em que o substantivo aparece discriminado pela inicial www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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maiúscula. Não nos parece problemático optar por esta última  forma, principalmente se
pensarmos no  caráter pedagógico que queremos  imprimir  ao  trabalho  com a escrita do
Hunsrückisch.  Além  disso,  tal  decisão  é  respaldada  quase  unanimemente  na  tradição
(vejam-se  RAMBO  [1937-1961],  FLACH  2004,  GROSS  2001,  MÜLLER  1996,
BRUMMBÄR-KALENDER [1931-1935], COLLISCHONN [vários], dentre outros).

b) Palavras compostas

  O  mesmo  argumento  da  compreensibilidade  do  escrito  vale  para  as  palavras
compostas  que,  a  nosso  ver,  deveriam  respeitar  a  forma  aglutinada,  por  constituírem
unidades semânticas próprias (p.ex. Reenscherrem ‘guarda-chuva’, e não Reen scherrem,
Tischtuch  ‘toalha  de mesa’,  e  não  Tisch  tuch). A  forma  separada  pode  dar margem  a
dúvidas e ambigüidades, como p.ex. em spritz bier ‘Spritzbier, a cerveja caseira’.

c) Empréstimos do português: empréstimos integrados ou estrangeirismos

  No caso dos empréstimos do português, maciçamente encontrados no Hunsrückisch,
colocam-se  dificuldades  em  exemplos,  onde  a  ortografia  do  português  difere
substancialmente  da  do  sistema  de  referência  do  alemão  e,  por  conhecimento  do
português,  tendêssemos à ortografia da  língua de origem. Um exemplo que  ilustra esse
impasse é o  lusismo calçada, que no Hunsrückisch pode aparecer como estrangeirismo
(quando mantém a mesma  forma da  língua-fonte) – neste caso, die Calçada – ou como
empréstimo  já  integrado  ao  sistema  fonológico  do  Hunsrückisch  –  neste  caso,  die
Kalsoode.  Tal  se  observa  também  em  galicismos  como  die  chamant  ‘simpático’  (fr.
charmant). Como proceder nesses casos?
  Seguindo os princípios fixados, poderíamos sugerir que os estrangeirismos seguem a
ortografia  da  língua  de  origem,  e  os  empréstimos  integrados  as  regras  da  escrita  do
Hunsrückisch. A  isso,  porém  é  preciso  somar  a  força  do  uso  corrente  e  recorrente  de
determinada forma. A prática ainda nem sempre tem sido tão conseqüente, como mostra
o  título de um  texto de W. H. Collischonn, na  coluna Der Friedolin,  intitulada Uff de
Calçode  abgeritscht.  Nos  parece  que  a  sistematização  proposta  pode  ajudar  como
orientação,  embora  se  deva  reconhecer  que  esses  casos  são  fortemente  regulados  pela
regra do uso, a qual explica por exemplo grafias como Chor  ‘coral’, ao  invés de Kohr,
que causaria forte estranhamento no leitor. Nessa linha de raciocínio, é preciso levar em
conta  também  grafias  como  a  do  exemplo  Calçode.  A  prática  do  uso  recorrente
certamente irá regular esses casos.
  Vale  ressaltar  que,  na  nossa  concepção  de  escrita,  entendemos  que  ao  processo  de
leitura  de  um  texto  subjaz  um  diálogo  intertextual  e  intercultural,  no  qual  o  leitor
compara  e  associa  conhecimentos  e  palavras. Ou  seja,  um  texto  em Hunsrückisch  não
existe no vácuo, mas dialoga com outros  textos  inclusive  textos escritos em português e
Hochdeutsch.
3 Vocalismo
3.1 Duração da vogal
  No português, não há distinção entre vogais breves e longas, e conseqüentemente, não
há grafemas no português para marcar esta distinção, o que nos  leva a  recorrer a  regras
do alemão. www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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3.1.1 Vogais breves
a) No  alemão,  vogal  seguida  de  duas  consoantes  é  pronunciada  com  duração  breve.
Essa  regra  é  seguida  de  maneira  mais  ou  menos  conseqüente  pelos  autores  que
escrevem em Hunsrückisch:

“Wenn  de  alte Vetter Pitter  sei  gross Brill  uff  die Nas
gesetzt  hot”  ‘Quando  o  velho  tio  Pedro  acavalava  os
óculos sobre o nariz’ (RAMBO 2002, v. 1, p. 156)
“Donnaschtags Mittags  hatt’a  de Zug  geholl  bis Santa
Maria“  ‘Quintas-feiras à  tarde pegava o  trem até Santa
Maria’ (FLACH 2004, p. 102
“Die Kinna wolle, die Fraa will, unn de Mann will nix
demit wisse. Unn dann?“ ‘As crianças querem, a mulher
quer  e o homem não quer  saber de nada disso. E daí?’
(SPOHR, Familien-Kalender 2006, p. 130)

  A  regra  aplica-se  de  modo  geral  também  a  exemplos  monossilábicos  muito
freqüentes,  como  uff,  unn  e  honn. Talvez,  aqui,  o  uso  e  a  prática  possam  sugerir  uma
forma simples.

b) Um caso particular de aplicação dessa regra são os exemplos decorrentes da adição de
uma  vogal  epentética,  como  em Milch  ‘leite’,  que  se  torna Millich,  ou  Berg  var.
Berch ‘morro’, que fica Berrich. A duplicação da consoante, para marcar que a vogal
é  breve,  é  usada  pela  maioria  dos  autores,  como  Spohr  (p.ex.  Kerrich,  Familien-
Kalender  2006,  p.  106)  e  principalmente  Rambo  (Kerrich,  2002,  v.  2,  p.  49;
Millichstross, 2002, v. 1, p. 81). Em nossa proposta, apesar da inclinação inicial para
a forma simples, por questões, decidiu-se por fim pela aplicação sistemática da regra
apresentada em a).

c) As vogais átonas não oferecem grandes problemas, a não ser a vogal  /a/ em final de
sílaba,  que  em  muitas  palavras,  e  inclusive  em  nomes  e  sobrenomes  (ex.  Peter,
Schneider, Käfer),  é grafada  como <-er>. Aqui, parece haver bastante divergências.
Alguns  autores  chegam  a misturar  as  formas  <-er>  e  , muitas  vezes  no mesmo
texto. De modo geral, em Rambo, Rottmann e Gross predomina o emprego de <-er>,
enquanto que Spohr e Collischonn variam o emprego entre <-er> e . Exemplos:
imma  ‘sempre’, awer var. awa  ‘mas’, unsa var. unser  ‘nosso’  (COLLISCHONN  in:
Der Friedolin, 2006). Uma exceção é Flach, que emprega  sistematicamente a grafia , inclusive no título de seu livro Unsa gut deitsch Kolonie.

  Um  problema  maior  aparece  em  contextos  de  sílaba  tônica.  Evidentemente  que  a
grafia de um pronome  como Wer  ‘quem’  tem de  fato o efeito desejado, na medida em
que a sua pronúncia conhecida da escrita do padrão coincide com a do Hunsrückisch. O
que  fazer, no entanto´, com palavras como mehr var. meh  ‘mais’, Meer  ‘mar’, mir var.
mea ‘a mim’ e a forma para o pronome pessoal mea var. mia ‘nós’.
  Nossa opção é pelo emprego de <-er> em posição pós-tônica  (p.ex. unser  ‘nosso’,
Fenster  ‘janela’,  awer  ‘mas’)  e  de    em  posição  tônica  (p.ex. Weat  ‘valor’,  heat
‘ouve’), ressalvadas as exceções fixadas pelo uso recorrente. A opção por <-er> se deve à
sua relação lógica com a formação do plural e da declinação de modo geral, onde aparece
um  /r/. Exemplo: unsre Fenstre  ‘nossas  janelas’. Este argumento está em  sintonia com
nosso propósito de  fomentar, com esse  trabalho, a  reflexão e a educação  lingüística em
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d) Os mesmos argumentos usados para o caso anterior valem, em parte,  também para a
grafia de (como em vor ‘antes, na frente’, Motor ‘motor’). Flach registra ,
seguindo  a mesma  tendência  para  <(e)a>. Nossa  dúvida  novamente  recai  sobre  os
monossílabos, onde  já  existe  a grafia <-ohr>,  como  em Rohr  ‘cano’, Ohr  ‘orelha’.
Estendemos  essa  escrita  por  analogia  a  contextos  resultantes  de mudança  vocálica,
como em Johr ‘ano’, Hohr ‘cabelo’, wohr ‘verdadeiro’, com a mesma justificativa da
concordância sintática, p.ex. de plural, como em die Johre ‘esses anos’, onde aparece
o /r/. Essa grafia aparece também em Rambo e Rottmann:

“Et war eso em Määdche
Vunn neinzeh – zwanzig Johr,
Hatt, wie Keschdanieschilze,
So braune, glatt Hohr.”5
 (ROTTMANN 1950, p. 144)

e) Por fim, o mesmo tratamento de d) pode ser dado aos segmentos (como em nur
var. nurre, nore ‘somente’, pur ‘puro’, Schnur ‘fio’, Natur ‘natureza’) e <-uhr> (p.ex.
Uhr ‚relógio, hora’, Fuhr ‚carreiro ao arar’).
3.1.2 Vogais longas
  Para  marcar  que  a  vogal  é  longa,  o  alemão  oferece  duas  grandes  regras  que  são
seguidas pelos autores e também por nós:

a) Vogal diante de consoante simples pronuncia-se como longa, em oposição à regra a)
para  vogais  breves.  Exemplos:  Lewe  ‘vida’  (compare-se  Lewwer  ‘fígado’),  brige
‘brigar’ (compare-se com Bricke ‘pontes’).

  Um problema sobre o qual muitas vezes não há muita clareza ocorre nos casos onde o
Hochdeutsch usa o grafema <ß>, que obviamente é excluído da escrita do Hunsrückisch.
Contudo,  ao  escrever  palavras  como  alemão  Straße  ‘rua’  e  groß  ‘grande’  em
Hunsrückisch Stross ou gross, os autores violam a  regra da vogal breve diante de duas
consoantes,  deixando de marcar oposições como Stros  ‘rua, estrada’ e Stross  ‘garganta’.
Às vezes essa oposição vem acompanhada apenas de variação simples da mesma palavra,
como  em Hoss  var. Hos  ‘calça’  e Hoos  ‘coelho’. É verdade que o  contexto  auxilia na
compreensão, mas o exemplo mostra a perspicácia dos falantes em marcar a distinção, ou
através  da  duração  (/o/  longo  ou  breve),  ou  através  da  abertura  da  vogal  (/o/  longo
fechado ou aberto).
  Outro problema decorre da espirantização de /g/, resultando em um som equivalente a
(v. abaixo no consonantismo). A vogal que antecede de modo geral é breve,
p.ex. em  spreche  ‘falar’ e  lache  ‘sorrir’. Com a espirantização,  surgem exemplos como
Kuchel ‘bola’, Kuche ‘cuca’ ou Vochel var. Vohl ‘pássaro’, que pela regra seriam breves,
mas  se  pronunciam  como  vogais  longas. Optamos  aqui  em manter    simples,  por
maior economia e por achar que não causa maiores problemas na leitura.

b) Vogal  diante de   pronuncia-se  como  longa. Exemplos:  hohl  ‘oco’  (compare-se
holl ‘pega’), Stihl ‘cadeiras’ (compare-se Stiel ‘cabo’ e still bleiwe ‘ficar parado, não
se mexer’), stehn ‘estar parado, em pé’ (compare-se Stenn ‘estrela’, ‘testa’).

  Um problema dessa  regra é que exige de quem escreve um grau de  letramento e de
familiaridade  com  a  escrita  do  alemão,  como  aliás  o  conjunto  da  proposta.  Por  outro
lado, para a leitura parece não haver essa mesma dificuldade. Como qualquer língua, uma www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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boa escrita pressupõe uma boa experiência de leitura. Outras opções, além das já citadas,
para marcar as vogais longas são encontradas na tradição. São as seguintes:

c) É comum o emprego do grafema para marcar  /e:/  longo,  sobretudo nos casos
em  que  existe  a  variante    (tipo  3  do Hunsrückisch, mais  próximo  do  padrão),
como em Steen var. Stein ‘pedra’ (compare-se stehn e Stenn acima), kleen var. klein.
Inclui-se aqui toda a série de verbos com sufixo –iere vs. –eere, como em telefoneere
var.  telefoniere  ‘telefonar’,  schmeere  var.  schmiere  ‘esfregar,  untar’.  Por  fim,  em
alguns  casos  onde  o Hochdeutsch  apresenta  vogal  longa  arredondada  /ö/,  costuma
aparecer,  nos  textos  em  Hunsrückisch,  a  grafia  com  ,  p.ex.  scheen  ‘bonito’
(compare-se Hdt. schön). São poucos exemplos. A nossa posição é  favorável ao uso
de que julgamos auxiliar na clareza sobretudo de monossílabos.
d)  O  emprego  de  ,  inclusive  como  variante  de  pronúncia,  aparece  generalizado.
Exemplos:  lieb  ‘querido’, Besemstiel  ‘cabo  de  vassoura’,  Lied  ‘canção’,  namoriere
var.  namoreere  ‘namorar’.  Como  no  caso  de  /ö/,  o  grafema    pode  assumir  a
mesma  função  para  distinguir  palavras,  sobretudo  monossilábicas,  onde  o
Hochdeutsch  possui  <ü>,  p.ex.  mied  ‘cansado’  (compare-se  Hdt.  müde),  Brieder
‘irmãos’  (compare-se  Hdt.  Brüder).  Rambo,  como  alguns  outros  autores  isolados,
emprega  às  vezes  para  esses  casos  ainda  .  Isso  nos  parece  uma  grafia
desnecessária, pois  já está coberta pelo . Nos contextos onde segue , opta-se
por simples, pois o já marca a duração longa.
e) Talvez uma das maiores dificuldades na escrita do Hunsrückisch seja a grafia para /o/
aberto  e  longo. A maioria  dos  autores  emprega,  na  verdade,  a  variante  /a/  longo,
grafando-a muitas vezes com dois . Esta opção coincide de  fato com a variante
do  tipo 3 do Hunsrückisch, mais próximo do padrão; contrasta porém com o que, na
verdade,  se  fala  com mais  freqüência nas  colônias, onde,  como mostra o  estudo de
Altenhofen  (1996,  v.  mapas  26,  27,  28,  54,  56,  59,  69),  a  partir  de  um  corpus
representativo de dez localidades situadas nas colônias novas e velhas do Rio Grande
do  Sul,  predomina  o  uso  de  /o/  longo  e  aberto  no  dia-a-dia.  Como  registrar  esta
pronúncia grafematicamente?

  A opção dos autores por ou ,  representando quase a maioria  (p.ex. aarich
‘muito’,  aach  ‘também’,  Taach  ‘dia’,  Fraa  ‘mulher’,  Gaade  ‘jardim’,  como  em
Rottmann  e  Rambo),  deve-se  em  parte  a  uma  tradição  anterior,  que  usava
prioritariamente , e à falta de um grafema mais apropriado para o som de /o/ longo
aberto. Nossa posição, respeitando o emprego de ou por quem fala o tipo 3 de
Hunsrückisch,  foi  encontrar  um  grafema  para  essa  vogal  /o/  aberta  e  longa.  Nos
defrontamos com duas opções:

1. uso de para contrastar com   fechado  longo diante de consoante simples ou
. Exemplos: Galinhoode var. Galinhade  ‘galinhada’, Goode var. Gaade  ‘jardim,
horta’  (compare-se  Kote  ‘madrinhas’),  além  dos  exemplos  já mencionados  oorich,
ooch, Tooch e Froo. O emprego de aparece, em alguns autores como Rambo,
Rottmann  e  Spohr,  para  /o/  fechado,  em  analogia  ao  que  se  pratica  com  ,
escrevendo p.ex. Schoof (Rottmann 1950, p. 147), noore (Spohr 2006, p. 106), Bloos
var. Blas ‘bexiga’ (RAMBO 2002, v. 1, p. 118).
2. uso de <ó>, valendo-se de um acento agudo, como no português. Esta opção aparece
esporadicamente,  como  em Collischonn. Cogitamos  também  dessa  forma  de  grafia,
mas os exemplos nos pareceram muito esdrúxulos e estranhos ao público  leitor não
acostumado: órich, óch, Fró, Tóch etc.

  Após muita discussão, optamos pela forma , convencionando que esta sempre se
pronuncia  como  /o/  longo  e  aberto. A  oposição  é  necessária  para  distinguir  exemplos
como Rood ‘roda’ e rot ‘vermelho’, Boohn var. Bahn ‘cancha’ e Bohn ‘feijão’. www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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3.2 Vogais desarredondadas
  Diferentemente  do  Hochdeutsch,  não  ocorrem  no  Hunsrückisch  as  vogais
arredondadas /ö, ü, ä/, que são pronunciadas respectivamente como /e, i, e/. Optamos, por
isso, pelos grafemas e ,  salvaguardados os casos discutidos acima em  relação à
e , quando a vogal for longa. Exemplos. here ‘ouvir’ (Hdt. hören), Glick ‘sorte’
(Hdt. Glück), Medche  (Hdt. Mädchen), mais os casos em que a grafia   (p.ex. bees
‘brabo’ [Hdt. böse]) ou (p.ex. mied ‘cansado’ [Hdt. müde]) ajuda a marcar a vogal
longa (v. 3.1.2 regras c) e d)). A literatura em Hunsrückisch ainda registra ocorrências de
<ä>, principalmente Rambo e Rottmann  (p.ex. Männer  ‘homens’, ao  invés de Menner).
Tal como no caso de <ß> achamos que se  trata de um grafema dispensável, além de ser
exclusivo do sistema ortográfico alemão, portanto estranho ao usuário que se alfabetizou
basicamente em português.
3.3 Ditongos
  Além dos ditongos decrescentes  /ea, oa, ua/  resultantes da vocalização de um  /r/,  já
tratados acima, destacam-se ainda os seguintes casos:

a) Opção pela grafia : presente em diversos sobrenomes, nos parece adequado optar
pela  forma    em  lugar  de  ,  como  fazem  alguns,  quando  escrevem  em
Hunsrückisch. Nos parece que basta convencionar que sempre se pronuncia /ai/,
exceto  em  estrangeirsimos  do  português  (p.ex.  de  Pai  ‘papai’)  ou  exemplos
consagrados  pelo  uso,  como  Mai  ‘maio’,  e  que  isso  não  representa  maiores
problemas,  além  de  didaticamente  facilitar  posteriormente  no  ensino  de  alemão-
padrão  como  língua  estrangeira. Exemplos:  Schneider  ‘alfaiate’,  fein  ‘fino,  chique’,
heit ‘hoje’, Leit ‘pessoas’, Ei var. Eu ‘ovo’, Feier ‘fogo’.
b) Opção pela grafia :  Aplicam-se aqui os mesmos argumentos usados em relação
a . O emprego de poderia deixar dúvidas sobre a qualidade da vogal /o/, se
fechada  ou  aberta.  Já  a  marcação  da  abertura  com  acento  (<ói>)  viola  outros
princípios  mencionados  anteriormente.  Os  exemplos  não  são  tão  numerosos,
sobretudo considerando a sua substituição por nos tipos 1 e 2 do Hunsrückisch,
onde é visto como marca do alemão-padrão (feines Deitsch ‘alemão fino’). Exemplos:
Neumann  ‘um  sobrenome conhecido’, neun var. nein  ‘nove’, Eu var. Ei  ‘ovo’, zweu
var. zwei ‘dois’, Meu var. Mei ‘visita’, heut ‘hoje’, Leut ‘pessoas’.
c) A  grafia  de    não  oferece maiores  problemas,  dada  a  sua  coincidência  com  o
português.  Exemplos:  Haus  ‘casa’,  Maus  ‘camundongo’,  raus  ‘para  fora’,  Haut
‘pele’, Maul  ‘boca’, haue  ‘bater’  e  também nos  casos onde é variante do  tipo 3 do
Hunsrückisch, mais próxima do Hochdeutsch (p.ex. Baum var. Boom ‘árvore’, auch var.
ooch ‘também’).
d) O mesmo vale para a grafia . Os exemplos, porém, são mais raros, muitas vezes
de empréstimos do português: Teekui ‘cuia de chimarrão’, Lui ‘abreviatura de Luís’.
4 Consonantismo
  A grafia das consoantes segue, em nossa proposta, a tendência das regras do alemão,
por motivos que  já  foram explicitados. Os casos mais polêmicos além das vocalizações
de  /r/ e da  função de para alongar a vogal precedente  já  foram discutidos. Para os
seguintes  contextos,  trata-se de  convencionar que  “grafema x  se pronuncia como x”, o
que  para  a  leitura  não  traz  grandes  problemas,  mas  para  a  escrita  exige  certa
familiaridade com o texto escrito. É o caso dos pares e (Vater ‘pai’, fetter ‘mais
gorduroso’, Vetter  ‘primo’),  sobretudo  no  prefixo  ver-  que  convencionamos  com  duas
variantes possíveis, ve- e fa- (p.ex. vestehn var. fastehn ‘compreender’). www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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  O  quadro  final  resume  os  grafemas  utilizados  e  serve  como  uma  espécie  de  guia.
Destes, cabe destacar os seguintes exemplos mais discutíveis:

a) tem sempre pronúncia oclusiva (p.ex. gille ‘valer’); quando é aspirado, escreve-se
como (p.ex. richtich ‘correto’, Kuchel ‘bola’).
b) , e pronunciam-se, é verdade, com certo ensurdecimento. Seus correlatos
surdos , e

acrescentam muitas vezes um  traço de aspiração. Exemplos:
koote ‘jogar cartas’ vs. Goode ‘jardim, horta’, picke ‘picar’ vs. bicke ‘agachar-se’.
c)   traduz a consoante velar (no fundo da garganta), como em jinger ‘mais jovem’,
salvo exceções em que coincide com , como em Bank ‘banco’.
d) preferimos   e   à  escrita   e , por  resultar no mesmo efeito de
pronúncia pelo leitor, assim como também pela sua maior economia.
e) ocorre diante e depois das demais consoantes e de vogal: Schul ‘escola’, fosch
‘forte’, veschreiwe ‘receitar’, schneide ‘cortar’, schlicke ‘engolir’, schmeisse ‘atirar’.
f)   representa dois  sons  inexistentes no português,  seja palatal, como em  ich  ‘eu’,
richtich  ‘correto’,  schlecht  ‘ruim’,  seja  velar,  como  em  noch  ‘ainda’,  Tischtuch
‘toalha  de  mesa’,  jachte  ‘caçar’,  Hietche  ‘chapéuzinho’  (compare-se  Hittche
‘cabaninha’)
g) casos de mera convenção, pelo menos para a leitura são as pronúncias de como /f/
(p.ex. Vater  ‘pai’),   e   como  /ts/  (p.ex. Zeitung  ‘jornal’, Katz  ‘gato’),
como /v/ (Wasser ‘água’, Wowwo ‘vovô’).
h) o mesmo vale para e , e (v. exemplos abaixo).
i) pode  ser  interpretado como ,  tornando a vogal precedente curta. Exemplo
Mick ‘mosca’.
5 Resumo da proposta de escrita para o Hunsrückisch
  Resumindo a análise dos aspectos tipográficos, do vocalismo e do consonantismo que
compõem  uma  proposta  de  escrita  do  Hunsrückisch,  podemos  apresentar  o  seguinte
quadro em forma de exemplificação, pressupondo, é claro, que os exemplos falam por si
e  que  a  sua  implementação  depende  naturalmente  de  um  treinamento  prévio,  e  que  a
prática e o uso irão determinar as adaptações ainda necessárias.

  Aspectos tipográficos:

·  substantivos  com  inicial maiúscula:  das Fest  ‘a  festa’  (compare-se  fest  ‘preso,
fixo’), de Brige ‘briga’ (compare-se brige ‘brigar’).
·  palavras compostas escritas junto: Blitzlamp ‘lanterna’, Dickkopp ‘cabeçudo’.
·  escrita  dos  estrangeiros  como  na  língua-fonte:  die  Calçada  ‘a  calçada’,  de
Milho  ‘o  milho’,  de  Show  ‘o  show’,  de  Jorge  ‘o  Jorge’,  die  Corrupção  ‘a
corrupção’.
·  empréstimos  integrados  seguindo as regras do Hunsrückisch: die Kalsoode  ‘a
calçada’,  de Miljekolwe  ‘a  espiga  de milho’,  de  Schosch  ‘o  Jorge’  (cf.  francês
Georg), die Korruption ‘a corrupção’.

  Vogais breves:

·  vogal  diante  de  duas  consoantes:  kalt  ‘frio’,  holl  ‘pega’,  Stenn  ‘estrela,  testa’,
Land  ‘terra’,  Stross  ‘garganta’,  Fest  ‘festa’,  lenne  ‚aprender’,  bringe  ‚trazer’,
krinse ‚resmungar’.
·  duplicação da  consoante  em  contextos de adição de vogal  epentética: Millich
‘leite’, Berrich ‘morro’. www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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·  <-er> em final de palavra: immer ‘sempre’, Kinner ‘crianças’, Menner ‘homens’,
Fenster  ‘janela’,  Lehrer  ‘professor’, Wasser  ‘água’,  Lewwer  ‘fígado’,  scheener
‘mais bonito’, hetter ‘mais alto, mais duro’.

  Vogais longas:

·  vogal diante de consoante simples pronuncia-se longa: gros ‘grande’, Stros ‘rua’,
ruwe  ‘chamar’,  Lewe  ‘vida’,  Bower  ‘abóbora’, Buwe  ‘rapazes’, Assude  ‘açude’,
blumich ‘floreado’, brige ‘brigar’.
·  vogal diante de pronuncia-se longa: hohl ‘oco’, stehn ‘estar em pé’, Kuhstall
‘estábulo’, Schuhbennel ‘cadarço do sapato’.
·  diante de : Kuche ‘cuca’, kluch ‘inteligente’, Kuchel ‘bola’.
·  fechado diante de : Vochel ‘pássaro’.
·    (/i/  longo)  lieb  ‘querido’,  Spiel  ‘jogo’,  mied  ‘cansado’,  Lied  ‘canção’,
schmiere ‘passar em algo, esfregar’, telefoniere ‘telefonar’.
·    (/e/  longo)  kleen  ‘pequeno’,  scheen  ‘bonito’,  Reen  var.  Reeche  ‘chuva’,
schmeere ‘esfregar’, telefoneere ‘telefonar’.
·    (/o/  longo  aberto)  Goode  ‘jardim’,  Froo  ‘mulher’,  Tooch  ‘dia’,  woorem
‘quente’,  Groos  ‘grama’,  soohn  ‘dizer’  (exceção:  prefixo  on-,  onmache  ‘ligar’,
onbinne ‘amarrar’).
·  (/a/ longo) Gaade ‘jardim’, Fraa ‘mulher’, Taach ‘dia’.

  Ditongos:

·  Schneider  ‘alfaiate’,  fein  ‘fino’, heit  ‘hoje’, Leit  ‘pessoas’, Ei var. Eu  ‘ovo’,
Feier ‘fogo’.
·    Neumann  ‘um  sobrenome  conhecido’,  neun  var.  nein  ‘nove’,  Eu  var.  Ei
‘ovo’, zweu var. zwei ‘dois’, Meu ‘visita’, heut ‘hoje’, Leut ‘pessoas’.
·    Haus  ‘casa’,  Maus  ‘camundongo’,  raus  ‘para  fora’,  Haut  ‘pele’,  Maul
‘boca’, haue ‘bater’.
·  Teekui ‘cuia de chimarrão’, Lui ‘abreviatura de Luís’.
·    em  sílaba  tônica:  Weat  ‘valor’,  mea  ‘nós’,  Tea  ‘porta’,  Schea  ‘tesoura’
(exceções: leer ‘vazio’, Meer ‘mar’, Lehr ‘ensinamento’)
·  <-ohr, -or> com pronúncia de /oa/:  Rohr ‘cano, mangueira’, wohr ‘verdadeiro’,
Johr ‘ano’, Ohr ‘orelha’, Hohr ‘cabelo’, também vor ‘antes’.
·  <-uhr, -ur> com pronúncia de /ua/: Uhr ‚relógio, hora’, Fuhr ‚carreiro ao arar’,
também pur ‘puro’, Natur ‘natureza’.

  Consoantes:

·    jedes  Johr  ‘todos  os  anos’,  Jacke  ‘casaco’,  Jookob  ‘Jakob’,  Griensje
‘salsinha’, Bliesje ‘blusinha’, Miljehitt ‘paiol’.
·    (em  sílaba  tônica) Zeitung  ‘jornal’, Zimmer  ‘quarto’, Zeich  ‘roupa’, Zucker
‘açúcar’,  zackre  ‘arar’,  vezehle  ‘conversar’,  zurick  ‘de  volta’,  zwerich  ‘diagonal, mal-
educado’, Zwiwwel ‘cebola’.
·    (em posição pós-tônica) Katz  ‘gato’, Hetz  ‘coração’, Kotz  ‘vômito’,  spritze
‘respingar, vacinar’, kitzlich ‘coceguento’, putze ‘limpar’.
·    sauwer  ‘limpo’,  Kees  ‘queijo’,  Kuss  ‘beijo’,  sammle  ‘colecionar,  juntar’,
passeere ‘acontecer’, glense ‘brilhar’. www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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  Optamos,  aqui,  pelo  termo  língua,  quando  consideramos  seu  status  sistêmico  e
independente, em contato com o português (língua como sistema fônico e gramatical); a
opção por dialeto ocorre, quando  se destaca  sua condição de  subsistema do alemão e
sua  vinculação  histórica  ao  alemão  como  língua-teto  (Überdachungsnorm).  Veja-se
para tanto Coseriu (1982).
4
  Esta  estimativa,  que  se  baseia  em  resultados  do  projeto  BIRS  (Bilingüismo  no  Rio
Gande do Sul – v. ALTENHOFEN 1990) e dos censos do  IBGE de 1940 e 1950  (v.
MORTARA 1950), infelizmente os últimos que ainda inquiriram sobre outras “línguas,
além do português,  faladas no  lar,” deve ser  tomada apenas como um  indicador muito
geral. É praticamente impossível determinar um número preciso de falantes, ainda mais
considerando  que  os  censos  existentes  referem-se  às  línguas  pelo  nome  genérico,  no
caso alemão, sem referência propriamente à variedade dialetal específica que de fato é
falada.
5
  Tradução:  ‘Era  uma  vez  uma menina  /  de  dezenove,  vinte  anos  /  que  tinha  cabelos
marrons e lisos / da cor da casca da castanha.’


Tipologia do Hunsrückisch falado no Rio Grande do Sul, segundo Altenhofen (1996).

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   Mapa da variação de [a ] e [ ], segundo Altenhofen (1996).