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Sou o tipo de pessoa incansável. Faço de tudo o tempo todo e gosto de construir resultados. Locutor, apresentador, colunista, escritor e defensor da língua alemã Hunsrickisch, apaixonado pela música alemã e pela culinária, tenho por hobby cozinhar, pintar quadros a óleo e tocar contrabaixo. Eletrotécnico de carreira, me aposentei nesta profissão, e agora, além de manter ainda minha oficina eletrônica trabalho como voiceover internacional em e-learnings e wbt. Amo tudo o que faço.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Interessante Matéria sobre o Hunsrickisch e Walachai

 
O dialeto esquecido

Comunidade no sul do país usou português para completar as lacunas do dialeto alemão que usa há mais de 180 anos.
Edgard Murano
 


No Rio Grande do Sul, a 100 quilômetros de Porto Alegre, fica Walachai, um povoado de origem alemã que sempre viveu à margem. Na pequena comunidade rural, localizada na Serra Gaúcha, as pessoas falam um dialeto alemão chamado Hunsrückisch - também conhecido como "hunsriqueano" - e ainda vivem como se vivia cem anos atrás. Não por acaso, Walachai quer dizer "lugar distante, onde o tempo parou" em alemão antigo, expressão que faz jus ao seu clima bucólico.
O dialeto hunsriqueano, com origem na região do Hunsrück, no sudoeste da Alemanha, é uma das línguas minoritárias mais faladas no Brasil. Por "língua minoritária" entenda-se o idioma de uma minoria étnica situada numa dada região. O dialeto hunsriqueano representa uma das trinta línguas trazidas ao país por imigrantes, ao lado de aproximadamente 180 línguas indígenas existentes no Brasil. Embora não haja um levantamento preciso sobre o número de pessoas que falam o dialeto, sabe-se que estão espalhados em 38 localidades, a maioria no sul do país - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - onde os primeiros alemães se concentraram, no início do século 19.

Arcaico
O distrito de Walachai ficou conhecido quando um professor local, João Benno Wendling, decidiu registrar a história de seu povoado em livro, ao qual teve acesso a diretora de cinema Rejane Zilles, natural da cidade.
Foi o bastante para que ela resolvesse transformá-lo no documentário O Livro de Walachai (2007), mais tarde retomado no longa-metragem Walachai (2009), exibido na 33ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro passado. Wendling dedicou toda sua vida à alfabetização em português das crianças do distrito, e suas anotações, mais de 400 páginas escritas à mão, formam um relato minucioso da cultura e dos costumes locais.
- Fiquei comovida com a dedicação abnegada deste homem, que durante nove anos, sem nenhum auxílio, se dedicou a registrar a história do nosso povoado. Percebi que tinha ali um ótimo roteiro, mas o tempo urgia, pois o professor na época já tinha 82 anos e a saúde debilitada - conta Rejane.
O hunsriqueano é uma espécie de alemão arcaico, recheado de expressões que não encontram mais equivalência na língua alemã atual. Esse dialeto vem sendo transmitido de geração em geração desde a chegada dos primeiros imigrantes alemães, há mais de 180 anos. Por ser essencialmente falado, o hunsriqueano praticado no Brasil não dispõe de uma escrita sistematizada, valendo-se, normalmente, do chamado alemão-padrão (Hochdeutsch) e do português para o registro.

Identidade
O professor Cléo Altenhofen, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que são frequentes e notórios os juízos de valor depreciativos sobre as línguas minoritárias, em especial aquelas orais, caso do hunsriqueano.
- Essa condição de dialeto, situado abaixo da norma padrão, e de língua marginal submissa à língua oficial, o português, aliada à posição social dos imigrantes, tem dado margem a depreciações do Hunsrückisch, incluindo atributos como verlorene Sproch ["língua perdida"], vebrochne Deitsch ["alemão quebrado"] ou Heckedeitsch ["alemão do mato"] - diz Altenhofen.
O professor destaca o valor social do dialeto.
- Uma língua significa muito mais do que uma lista de palavras ou de regras gramaticais. É também um sinal de identidade - justifica.

Empréstimos
A diretora Rejane Zilles sentiu na pele, durante uma viagem pela Alemanha, o peso da identidade e o "anacronismo" do dialeto de Hunsrück em relação ao alemão culto.
- Cheguei a Berlim falando apenas o dialeto. Eu me sentia quase um "objeto antropológico". As pessoas tinham enorme curiosidade para saber de onde vinha esse alemão que eu falava e me diziam ser curioso ouvir uma pessoa jovem usando expressões tão antigas - diz ela.
Essa cultura própria, independente da matriz alemã, se evidencia nas influências do português sobre o hunsriqueano. Muitas palavras foram tomadas de empréstimo pelo dialeto devido à falta de conhecimento de suas correspondentes em alemão-padrão. Bom exemplo é "televisão", que não fora inventada à época da imigração. Foi "descoberta" mais tarde só pelo nome que lhe deram aqui no Brasil, ignorando que na Alemanha o aparelho chamava-se Fernseher. Há exemplos de hibridismos: Mais (milho) é de origem alemã, mas não era usada pelo dialeto. Em vez do alemão-padrão Maismehl (farinha de milho), o hunsriqueano criou o termo Milhomel. E de substrato: "guri", "menino" para os gaúchos, vai para o plural hunsriqueano com a flexão (e) do paradigma alemão: Gurie (outros exemplos no quadro ao lado).

Segregação
Regina Zilles diz que, ao rodar o documentário, queria desfazer o mito de que as comunidades alemãs optem pela segregação cultural.
- Muitos acham que "esses alemães" ficam louvando a Alemanha e seus costumes, ao modo das típicas festas de Oktoberfest. É claro que há esse segmento, mas não é a realidade de Walachai, um lugar que conheço de dentro, pois nasci lá. A Alemanha de origem está muito distante para essas pessoas humildes, da qual não sabem nada e nem demonstram interesse em conhecer. Já se criou uma cultura própria e essa sim me interessa revelar - diz.
Há uma real dificuldade, especialmente entre os idosos em Walachai, de falar português. Isso se deve, em parte, à política de nacionalização do Estado Novo (1937-1945). Getúlio Vargas reprimiu o ensino de alemão nas escolas. A proibição, de forma vertical e arbitrária, prejudicou o aprendizado do português, pois os alunos chegavam à escola e não entendiam o que o professor explicava. Mesmo depois de 1939, com a Campanha de Nacionalização do Ensino, o governo não tomou medidas que incorporassem os colonos alemães à cultura brasileira, e o aprendizado de toda uma geração foi afetado.
Durante todo esse tempo, Walachai viveu o limbo de dois idiomas que se cruzam.


   Termos emprestados do português pelo hunsriqueano
HUNSRIQUEANO
PORTUGUÊS
ALEMÃO-PADRÃO
Feschón
Feijão
Bohnen
Fakón
Facão
Buschmesser
Karét
Carreta
Lastwagen
Amesche
Nêspera
-
Past
Pasto
Weide
Makák
Macaco
Affe
Mule
Mula
Maultier
Onze
Onça
Jaguar
Schikót
Chicote
Peitshe
Karose
Carroça
Leiterwagen
Schuraske
Churrasco
Grill
                       Kanelepaum         
      Caneleira
         Zimtbaum