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Sou o tipo de pessoa incansável. Faço de tudo o tempo todo e gosto de construir resultados. Locutor, apresentador, colunista, escritor e defensor da língua alemã Hunsrickisch, apaixonado pela música alemã e pela culinária, tenho por hobby cozinhar, pintar quadros a óleo e tocar contrabaixo. Eletrotécnico de carreira, me aposentei nesta profissão, e agora, além de manter ainda minha oficina eletrônica trabalho como voiceover internacional em e-learnings e wbt. Amo tudo o que faço.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Interessante Matéria sobre o Hunsrickisch e Walachai

 
O dialeto esquecido

Comunidade no sul do país usou português para completar as lacunas do dialeto alemão que usa há mais de 180 anos.
Edgard Murano
 


No Rio Grande do Sul, a 100 quilômetros de Porto Alegre, fica Walachai, um povoado de origem alemã que sempre viveu à margem. Na pequena comunidade rural, localizada na Serra Gaúcha, as pessoas falam um dialeto alemão chamado Hunsrückisch - também conhecido como "hunsriqueano" - e ainda vivem como se vivia cem anos atrás. Não por acaso, Walachai quer dizer "lugar distante, onde o tempo parou" em alemão antigo, expressão que faz jus ao seu clima bucólico.
O dialeto hunsriqueano, com origem na região do Hunsrück, no sudoeste da Alemanha, é uma das línguas minoritárias mais faladas no Brasil. Por "língua minoritária" entenda-se o idioma de uma minoria étnica situada numa dada região. O dialeto hunsriqueano representa uma das trinta línguas trazidas ao país por imigrantes, ao lado de aproximadamente 180 línguas indígenas existentes no Brasil. Embora não haja um levantamento preciso sobre o número de pessoas que falam o dialeto, sabe-se que estão espalhados em 38 localidades, a maioria no sul do país - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - onde os primeiros alemães se concentraram, no início do século 19.

Arcaico
O distrito de Walachai ficou conhecido quando um professor local, João Benno Wendling, decidiu registrar a história de seu povoado em livro, ao qual teve acesso a diretora de cinema Rejane Zilles, natural da cidade.
Foi o bastante para que ela resolvesse transformá-lo no documentário O Livro de Walachai (2007), mais tarde retomado no longa-metragem Walachai (2009), exibido na 33ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro passado. Wendling dedicou toda sua vida à alfabetização em português das crianças do distrito, e suas anotações, mais de 400 páginas escritas à mão, formam um relato minucioso da cultura e dos costumes locais.
- Fiquei comovida com a dedicação abnegada deste homem, que durante nove anos, sem nenhum auxílio, se dedicou a registrar a história do nosso povoado. Percebi que tinha ali um ótimo roteiro, mas o tempo urgia, pois o professor na época já tinha 82 anos e a saúde debilitada - conta Rejane.
O hunsriqueano é uma espécie de alemão arcaico, recheado de expressões que não encontram mais equivalência na língua alemã atual. Esse dialeto vem sendo transmitido de geração em geração desde a chegada dos primeiros imigrantes alemães, há mais de 180 anos. Por ser essencialmente falado, o hunsriqueano praticado no Brasil não dispõe de uma escrita sistematizada, valendo-se, normalmente, do chamado alemão-padrão (Hochdeutsch) e do português para o registro.

Identidade
O professor Cléo Altenhofen, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que são frequentes e notórios os juízos de valor depreciativos sobre as línguas minoritárias, em especial aquelas orais, caso do hunsriqueano.
- Essa condição de dialeto, situado abaixo da norma padrão, e de língua marginal submissa à língua oficial, o português, aliada à posição social dos imigrantes, tem dado margem a depreciações do Hunsrückisch, incluindo atributos como verlorene Sproch ["língua perdida"], vebrochne Deitsch ["alemão quebrado"] ou Heckedeitsch ["alemão do mato"] - diz Altenhofen.
O professor destaca o valor social do dialeto.
- Uma língua significa muito mais do que uma lista de palavras ou de regras gramaticais. É também um sinal de identidade - justifica.

Empréstimos
A diretora Rejane Zilles sentiu na pele, durante uma viagem pela Alemanha, o peso da identidade e o "anacronismo" do dialeto de Hunsrück em relação ao alemão culto.
- Cheguei a Berlim falando apenas o dialeto. Eu me sentia quase um "objeto antropológico". As pessoas tinham enorme curiosidade para saber de onde vinha esse alemão que eu falava e me diziam ser curioso ouvir uma pessoa jovem usando expressões tão antigas - diz ela.
Essa cultura própria, independente da matriz alemã, se evidencia nas influências do português sobre o hunsriqueano. Muitas palavras foram tomadas de empréstimo pelo dialeto devido à falta de conhecimento de suas correspondentes em alemão-padrão. Bom exemplo é "televisão", que não fora inventada à época da imigração. Foi "descoberta" mais tarde só pelo nome que lhe deram aqui no Brasil, ignorando que na Alemanha o aparelho chamava-se Fernseher. Há exemplos de hibridismos: Mais (milho) é de origem alemã, mas não era usada pelo dialeto. Em vez do alemão-padrão Maismehl (farinha de milho), o hunsriqueano criou o termo Milhomel. E de substrato: "guri", "menino" para os gaúchos, vai para o plural hunsriqueano com a flexão (e) do paradigma alemão: Gurie (outros exemplos no quadro ao lado).

Segregação
Regina Zilles diz que, ao rodar o documentário, queria desfazer o mito de que as comunidades alemãs optem pela segregação cultural.
- Muitos acham que "esses alemães" ficam louvando a Alemanha e seus costumes, ao modo das típicas festas de Oktoberfest. É claro que há esse segmento, mas não é a realidade de Walachai, um lugar que conheço de dentro, pois nasci lá. A Alemanha de origem está muito distante para essas pessoas humildes, da qual não sabem nada e nem demonstram interesse em conhecer. Já se criou uma cultura própria e essa sim me interessa revelar - diz.
Há uma real dificuldade, especialmente entre os idosos em Walachai, de falar português. Isso se deve, em parte, à política de nacionalização do Estado Novo (1937-1945). Getúlio Vargas reprimiu o ensino de alemão nas escolas. A proibição, de forma vertical e arbitrária, prejudicou o aprendizado do português, pois os alunos chegavam à escola e não entendiam o que o professor explicava. Mesmo depois de 1939, com a Campanha de Nacionalização do Ensino, o governo não tomou medidas que incorporassem os colonos alemães à cultura brasileira, e o aprendizado de toda uma geração foi afetado.
Durante todo esse tempo, Walachai viveu o limbo de dois idiomas que se cruzam.


   Termos emprestados do português pelo hunsriqueano
HUNSRIQUEANO
PORTUGUÊS
ALEMÃO-PADRÃO
Feschón
Feijão
Bohnen
Fakón
Facão
Buschmesser
Karét
Carreta
Lastwagen
Amesche
Nêspera
-
Past
Pasto
Weide
Makák
Macaco
Affe
Mule
Mula
Maultier
Onze
Onça
Jaguar
Schikót
Chicote
Peitshe
Karose
Carroça
Leiterwagen
Schuraske
Churrasco
Grill
                       Kanelepaum         
      Caneleira
         Zimtbaum
 
 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Bela reportagem que saiu na tv Alemã, no programa Sammstag Abend:

Veja o video da matéria aqui: guck do hia de video fon dem tema:


Veja o artigo da matéria:
Ca. 1 000 000 Menschen wanderten in den letzten 3 Jahrhunderten aus ganz Deutschland nach Brasilien aus. Jedoch war es der Hunsrücker Dialekt, der sich durchsetzte und den die Auswanderer nun schon in der 7. Generation pflegen und am Leben erhalten.
Vor kurzen besuchten sie ihre Heimat ...

Tradução:

Cerca de 1 000 000 pessoas emigraram nos últimos 3 séculos de toda a
 Alemanha para  Brasil afora. No entanto, foi o dialeto hunsrickisch que sobreviveu e apesar de estarem na sétima geração em descendência, ainda mantém vivo entre eles.
Há pouco tempo visitaram sua terra natal...

domingo, 27 de novembro de 2011

Nova Colunista: Chteka von dea tsait wo ich klêen wód - Isolde Marx

Comentário:

Fiquei muito feliz e realizado com o comentário feito por esta nova leitora do blog e sua colaboração, para sentirmos de perto que nosso Hunsrickisch está longe de desaparecer. É através de contribuições valiosas como esta da Isolde que podemos sentir de perto que estamos renascendo. E se você tiver uma história, conte ela! Se não souber escrever em hunsrickisch, adapto para nosso blog.
Obrigado Isolde pela coragem e a boa vontade em contribuir. Espero que este seja o primeiro de muitos artigos.

Gontach, prime Pio

Krót hon ich gesiin dass ich dea noch ken antwort gechikt hat, tut mea laid. Ich wohne iets chon fier iôa in Joinville, hat áwwa foahea meh als draissig iôa in São Paulo gelebt. Ich hat mea als fierzich iôa nore gans gans selde mol platt daitsch gesprôch und hon ach noch net fill dii gelegehéd. Platt se chraiwe fange ich krót eascht óon un wêes noch net so richtich wii ich es chraiwe soll. Dórrich daine blog hon ich krót gesiín, dass es chon en sistem gibt, áwwa ich mênne es soll doch noch ebbes met dea daitche chrift se tôon hon. So wii du chraibst gefellt mea am beste.
Beste griisse un noch en chêne sôntach.
Isolde


Boa tarde, primo Pio
Recentemente eu vi que ainda não havia enviado resposta, sinto muito. Moro agora há quatro anos em Joinville e vivi antes disto, mais de trinta anos em São Paulo. Durante quarenta anos raras vezes falei o alemão Hunsrickisch pois não tive muitas oportunidades. Escrever o dialeto a recém estou iniciando e não sei se estou escrevendo certo. Através do teu blog fiquei sabendo que já existe um sistema (de escrita) mas espero que tenha algo a ver contigo. Assim como tu escreves é o que melhor me agrada.
Estimadas lembranças e ainda um ótimo domingo.
Isolde




Chteka von dea tsait wo ich klêen wód
                          Isolde Marx

Ich wód noch uf dea alt colonii guebôa, awa wii ich siwe monat alt wód, do sinn de papai un di mamai met mea in Sanda Catarina guevánnat und dót is de ganze tropp khenna dann nô komm bis die familhe fétich wód. Dót hon die lait óoch daitsch gechproch. Awa net so wait wech von uns wód en italiener gemaind, deshaleb hot de phóda sôntachs in de kérrich imma uf daitsch un uf brassiliónich gepredicht. In selwicha tsait hot ma brassiliónich earscht chpreche gelénnt wenn ma in di chuul
gang is. Awa ênmol hat ich doch en póo wétta brassiliónich ráuskriit. Das wód sôo: Mea hare en nôchba, de konnt óoch daitsch chpreche, hat awa en italiener frómench guehairat un desweche konnte denne ere khenna kêen daitsch. Di hare êmol en tsait lang kêen khuu un di khenna sinn desweche jede móind bai uns die millich hôlle komm. Êne sôntach móind wód de papai un di mamai mit dem nenne in die kérrich guefóo, ich un maine andre bruda musste de hemm blaive. Ich denke ich wód so fênef iôa alt un de bruda wód noch klêner, mea hon foam haus gechpillt. Dô komme uf êmol die nôchbas khenna. Ia, di mamai wód net dô um ich wód noch zu klêen fa denne di millich se gêwwe. Ia, mea hon ênfach dô guechtánn, di khenna hon net met uns guespillt, sin awa ach net fott gang. Das wód mea uf êmol so halwa chpassich, do hon ich di curój kriit un hon guesód: “mãe missa”. Wáachainlich hat ich die wétta fom phóda in de kérrich gueheat, es háupste wód awa, di khenna hon das fachstánn un sin hemm gang. Mea hon denne dann speter di millich hin guebrung wii di mamai hemm komm is.

De papai konnt so bíssie brassiliónich chpreche um hot ach álsmo met de italiener guechproch wenn dii bai uns am wech dórrich komm sinn. Êmol, ich wês nimme obs foa de kéreb wód ora foa ôstre, do hat ma io kuche se bágge, awa mea hare grót net guenuuch óia, desweche is main bruda bai di vôvo gechickt geb fa óia se hôlle. Do is dee grót met em kérebche fôll óia an de wêech komm, do kommt en italiener met em blumiche himd uf em gaul. De hat de papai io guekénnt un wollt mainem bruda en carona uf em gaul guêwe, hot awa natealich uf brassiliónich guechpróch. De bruda hot awa sôo en bang kriit, de hot das kérebche met samt de óia wêch guewórref um fott wód ea. Di óia fa de kuche wóre natêalich óoch fott.

Êmol háre de papai und di mamai foa de kéreb ene ganse engradóde foll flache gassose kóft. Hot noch iemand fon aich fría gassose guetrunk? Awa wii die kéreb komm is, wóre die gassose flache all fadórreb. Das wód sô gewês: maine tswérriche briida wóre en tóch mol alêen de hemm, do hon se fon ieda flach en bíssie getrunk, dass nímmand was mergue sollt. So must de papai dann fa di kérreb naie gassose kóofe.

Foam esse hot ma natêalich imma guebêt, óoch wenn mea khenna net imma alles fachtánn hon, tsum baichpill: “O mein Gott un Herr ich glóve alles vas Du offenbart hast”. Do hon ich êmolgefrôt: “ia, was hot de hérrgott dann uf em bóod?”

Ich wêss net, hat ma uf de alt colonii óoch françose uf de plantój? Das wód en únkraut wo ma in de ross net lôss guêwe konnt, das hot guebliit un fill sôome gemacht um glaich wód alles foll fon dem. Uf brassiliónisch hêsst das buva. Wii ich klêen wód hat ich net guewusst dass françose ene francês is. Eascht khétslich hon ich en bíssie iwa de hunsrick studíat, in dea internet, wêsste, do kann ma haitso tóch io nêxt alles lénne, guéll? Do honn ich êmol guelês wii die françose, di wo in França
wôone, imma un imma de hunsrick invadiert hon, desweche hare di lait di françose net guénn und hon geche die lutiert. Awa eb se wech gang sinn, hon die françose imma alles fabrênnt und kaput guemacht. Do is es mea eascht ínnguefall, dass di daitsche hia, wii se di buva net loss wérre konnte, wáchainlich so guesót hon: “Grót so wi di françose, die kánnste ruich áushácke ore áusrobbe, di komme awa doch nômmo”. Was denkt dea denn de von? Mecht das so guewên sin?


TRADUÇÃO:

Histórias do tempo quando era criança.
                          Isolde Marx

Eu ainda nasci na velha colônia, mas quando tinha sete meses, meu pai e minha mãe se mudaram comigo para Santa Catarina, e lá vieram depois a tropa de crianças até a família estar completa. Lá também as pessoas falavam alemão. Mas, nem tão distante de nós tinha uma comunidade italiana e por este motivo o padre fazia os sermões de domingo em alemão e português. Naquela época se aprendia a falar o português só quando se ia para a escola. Mas, de repente, consegui arrancar algumas palavras em português. Isto foi assim: nós tínhamos um vizinho o qual também sabia falar alemão, mas ele casou com uma italiana e por este motivo seus filhos não falavam alemão. Certa época eles ficaram um tempão sem ter uma vaca e por isto seus filhos vinham todas as manhãs lá em casa pegar o leite. Certo domingo de manhã, o pai e a mãe, juntamente com o nenê foram à missa e eu e meu irmão tivemos que ficar em casa. Acredito que eu tinha uns cinco anos e meu irmão ainda era mais novo. Ficamos brincando na frente de casa. De repente apareceram os filhos do vizinho. Sim, a mãe não estava aí e eu era muito pequena para dar o leite às crianças. Nós estávamos aí parados, os filhos do vizinho não brincavam conosco, mas também não iam embora. Isto me ficou meio estranho, até que criei coragem e disse: "mãe, missa!" Talvez eu tenha ouvido estas palavras do padre na igreja, mas o mais importante foi que  as crianças me entenderam e foram para casa. Então mais tarde levamos o leite até eles, quando a mãe havia retornado.

O pai sabia algumas palavras em português e falava de vez em quando com os italianos quando eles passavam na rua na frente de casa. Certa vez, não lembro se foi antes do kerb ou da Páscoa, então se assava cucas. Mas, nos faltaram ovos, então meu irmão foi enviado para a casa da vó para pegar mais ovos. Então, quando voltava, encontrou na estrada um italiano a cavalo com uma camisa florida. Ele conhecia o pai e quis dar uma carona no cavalo, mas, naturalmente, falou em português. Meu irmão se assustou, atirando longe o balainho com os ovos. E lá se foram os ovos (da cuca).

Certa vez o pai e a mãe compraram um engradado de gasosas para o kerb. Alguém de vocês tomou gasosa antigamente? Mas quando chegou o kerb, as garrafas de gasosa estavam estragadas. Foi assim: meus irmãos moleques ficaram uma vez um dia sozinhos em casa, então tomaram um gole de cada garrafa para não dar na vista. (Todas estragaram) Então meu pai teve que comprar novas gasosas para o kerb.

Naturalmente, antes das refeições sempre se rezava, mesmo que nós crianças, às vezes não entendíamos tudo, como por exemplo: "Ó meu Deus e Senhor, eu acredito em tudo que tens oferecido!" Então, certa vez perguntei: "O que Deus tem sobre a barba?" (ela havia entendido o termo: offenbart {oferecido} como sendo of em bóod {sobre a barba}.

Não me lembro, mas na velha colônia também havia franceses na roça? Isto era um inço que a gente não conseguia tirar da roça. Isto florescia, tinha muitas sementes e logo tudo estava minado com este inço. Em português se chama buva. Quando eu era pequena não sabia que os franceses eram os Franceses. Recentemente estudei um pouco sobre Hunsrück e então li que os franceses os nativos da França, sempre e sempre invadiam o Hunrsrück e por este motivo as pessoas não gostavam dos franceses e lutava contra eles. Mas antes que os franceses fossem embora, sempre queimavam e derrubavam tudo. Então caí em mim o porquê do nome deste inço, porque quando não conseguiam se livrar do buva diziam: "Que nem os franceses, pode arrancar ou capinar, eles voltarão." O que acham? Foi realmente assim?




domingo, 13 de novembro de 2011

Direito de Resposta do IPOL

Prezados leitores do Blog,
Tive um pedido de resposta sobre um artigo escrito e elaborado pelo Jornalista Ozias Alves Jr. do Jornal Biguaçu em Foco, de sua inteira responsabilidade, o qual transcrevi aqui no blog por achar ele ser de interesse coletivo. Mas, como veremos abaixo, algumas afirmações no artigo não são exatamente descritas como deveriam ser, gerando portanto algumas inverdades, rebatidas neste email do IPOL (Instituto de Políticas Linguísticas), o qual transcrevo literalmente aqui, abrindo espaço para direito de resposta. 
O link do artigo original está aqui:


Florianópolis, 12 de novembro de 2011.

Prezados Senhores,
Recentemente tomamos conhecimento do texto Uma escrita para a língua Hunsrickisch: qual o melhor caminho? de autoria do Sr. Ozias Alves Jr., publicado em 2 de maio de 2011 pelo Jornal Biguaçu em Foco e reproduzido na mesma data pelo Blog http://hunsrickisch.blogspot.com cujo responsável é o Sr. Pio Rambo. Neste texto, o autor cita e comenta a atuação do IPOL no Município de Antônio Carlos, Santa Catarina, divulgando infromações inverídcas. Diante da gravidade da situação, solicitamos que seja publicado, como direito de resposta, o texto que segue (no corpo do email e também em anexo), em que esclarecemos ao público em geral e a nossos parceiros, em particular, pontos de equívoco da referida matéria, sobretudo quanto ao trabalho que o IPOL desempenha.

1. Em relação à questão posta pelo jornal:

“Uma Escrita para o Hunsrück: Marcando Bobeira?. Dirigido ao secretário de educação de Antônio Carlos, Fábio Egert, e ao vereador Altamiro Kretzer (PT), autor do projeto de lei aprovado em setembro do ano passado transformando o Hunsrück no segundo idioma oficial daquele município, o artigo visou levantar uma questão importante: se a gente ficar dando importância a instituições universitárias, não sairemos do lugar.

Explico-me melhor: Fábio Egert disse-me, en passant, que a prefeitura estava negociando com o IPOL (Instituto de Políticas Linguísticas) um projeto para a elaboração de pedagogia e escrita para o idioma.”

1. Informamos que:

O IPOL não é instituição Universitária. É um Instituto que atua na promoção de políticas públicas para as línguas brasileiras, reconhecido pela sua atuação desde 1999 e cujo estatuto e atividades podem ser consultados no site www.ipol.org.br

O IPOL é uma instituição que atua em parcerias, prezando pela execução dos programas de trabalho. Em relação a Antônio Carlos, não houve nenhum programa acordado para elaboração de escrita do Hunsrück. O Instituto teve a honra de, a convite do Vereador Altamiro A. Kretzer e do Sr. Secretário da Eduação, Fabio Egert, atuar na promoção de audiências públicas visando a co-oficialização do Hunsruck. A discussão sobre a escrita é de direito da comunidade linguística de Antonio Carlos, que tem autonomia para assumir a posição que melhor atenda suas expectativas. O IPOL entende que o melhor caminho para a escrita da língua em Antonio Carlos é parte constitutiva da política linguística conduzida pelo Município. Certamente o Município poderá, para essa nova fase, continuar contando com a participação do IPOL tendo em vista sua qualificação técnica e sua comprovada experiência na área.

2. O referido texto publicado afirmou também:

“Professor Gilvan Müller de Oliveira, presidente do IPOL, é contra o sistema de escrita elaborado pela dra. Ursula Wiesemann, adotado pela cidade de Santa Maria do Herval (RS). Respeito sua posição, mas para fins práticos, o melhor sistema para Antônio Carlos é adotar a escrita de dra. Ursula. Os motivos são óbvios: é simples, prático, não precisa ser ensinado e é GRATUITO.

Temos de ser mais práticos para sair do “atoleiro”

REFLEXÃO- Temos de tomar muito cuidado com universidades. Eles falam bonito, cheio de citações aqui e acolá, mas têm um grave defeito: não são práticos e custam caro.

O assunto dá um livro, mas tentando resumir em rápidas palavras: o pessoal de universidade está mais preocupado em produzir dissertações de mestrado e teses de doutorado do que em questões práticas.

Dou um exemplo. Existe um professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul chamado Cléo Altenhofen. Este cidadão é considerado o maior especialista no idioma Hunsrück. Em 1996 ele publicou sua tese de doutorado, um calhamaço intitulado “Hunsrückisch in Rio Grande do Sul. Ein Beitrag zur Beschreibung einer deutschbrasilianischen Dialektvarietät im Kontakt mit dem Portugiesischen” (Tradução: O Hunsrück no Rio Grande do Sul: Descrição de uma variedade dialetal alemã em contato com o português).

Este professor, muito ligado ao citado professor Gilvan Müller de Oliveira, faz parte de um grupo de “especialistas” que defende uma escrita para o idioma com poucas variações com relação à escrita tradicional alemã.

Bonito, ótimo e maravilhoso. Mas espera aí. O que de prático o professor Altenhofen trouxe para as comunidades falantes de Hunsrück? Por acaso, já publicou um livro explicando sua escrita e distribuiu às comunidades? Já escreveu um dicionário tão necessário para o desenvolvimento da pedagogia desse idioma? Já traduziu algum livro de literatura interessante nesta língua, que a domina muito bem certamente, para incentivar o aparecimento de “bibliotecas” neste idioma?

Essa turma produz calhamaços e mais calhamaços de estudos, mas nada de prático para ajudar as comunidades Hunsrücker a desenvolver o uso escrito do idioma e outras atividades necessárias para sua divulgação.”

2. Informamos que:

Uma vez que não houve proposta para elaboração de escrita por parte do IPOL, a afirmação acima constitui uma falácia. A menção pública de opinões de pessoas também públicas e conhecidas como o Sr. Gilvan Muller de Oliveira e o Sr. Cléo Vilson Altenhofen devem ser validadas por elas, a custo de estarem, os jornais, incorrendo em difamação. Neste caso, constitui lei de imprensa que o Sr. Cleo e o Sr. Gilvan respondam neste jornal a estas acusações que lhes são dirigidas. No caso da menção dos modelos de escrita pelo IPOL durante audiências, o Sr. Ozias claramente confunde a menção às propostas existentes como forma de abertura de um debate junto à comunidade, com defesas e acusações que não existiram, exceto no texto que ele publicou.

3. Quanto à proposta de trabalho para Antônio Carlos, os referidos meios publicaram:

“Explico-me melhor: Fábio Egert disse-me, en passant, que a prefeitura estava negociando com o IPOL (Instituto de Políticas Linguísticas) um projeto para a elaboração de pedagogia e escrita para o idioma.

Até aí, nada demais. Afinal, como o Hunsrück já é o segundo idioma oficial da municipalidade de Antônio Carlos, é preciso avançar e a meta é oferecer um dia alfabetização neste idioma nas escolas públicas daquela cidade.

Então, Fábio falou que o preço do trabalho (ou do início do mesmo) estava entre R$ 20 mil ou R$ 30 mil, não me recordo direito. Humm! Também nada contra, mas espera aí: entidades universitárias não levam a lugar algum.”

3. Informamos que:

A Secretaria da Educação de Antonio Carlos solicitou ao IPOL uma proposta, portanto, um instumento de negociação, e esta contempla outros focos de promoção da língua que nada têm a ver com a escrita do Hunsrück. A publicação de informações aleatórias, descontextualizadas e sem comprovação constitui ação de agravo moral e desrespeita a ética com que o IPOL sempre conduziu suas parcerias. Diante desse quadro, o IPOL solicita esclarecimentos sobre os valores expostos e seus usos, para que haja um aclaramento sobre as afirmações que precedem, uma vez que atingem a imagem do Instituto.

Considerando que proporcionar a circulação de informações corretas é a função primeira de qualquer órgão da imprensa, solicitamos que os referidos jornais publiquem as correções que fizemos acima, na íntegra. Consideramos ainda, que essa publicação é um direito de resposta garantido ao IPOL diante da ação difamatória de que foi alvo.

No aguardo de confirmação de recebimento deste email e da confirmação da publicação imediata do texto corrido, apresento minhas cordiais saudações.

Rosângela Morello
Coordenadora do IPOL

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Canção em Alemão Hunsrickisch - Das Millich Lid


Ouça esta canção aqui: Hea das lid do hia:



    HUNSRICKISCH                                 PORTUGUÊS


Das Millichlid                                         A Canção do leite
      Banda San Diego                             Banda San Diego


(geschproch: "So, Pheda, komm       (falado: "Assim Pedro, vem agora
iets bai uns un sing moh das           conosco e cante uma vez a canção
millich lid foa!" "Mach's                   do leite!" "Apresente a canção
millich lid foa!")                             do leite!")  
                                     

Bai uns in Ivoti                            Conosco em Ivoti                          
Da is en chteck passiat                Aconteceu uma história
Da honn di lait das wassa             Onde as pessoas misturavam
In di millich renn gerriat.               Água no leite.
Auf ene gute tag                         Um belo dia
Hot de Kohla reclamiad                  O leiteiro reclamou
Do honn se'm's gesicht geschpritst  Então o esguicharam em seu rosto
Do wóora gans beschmiad.            Então ele estava todo enlambuzado.

Da unne an de bricke                   Lá embaixo nas pontes
Da wohnt di Puhle frau                 Mora a senhora Puhl
Das di ia imma wassa chitt           Que ela sempre mistura água
Das wais'mir gans genau.             Isto sabemos exatamente.
Di frau di kann io ehrem sinn         A mulher parecendo honesta
Das geht io grad so chehn            Fazia tudo andar perfeitamente
Bis ene gute morgen                   Até que numa bela manhã
Las de Kohl di millich chtehn.        O leiteiro deixou o leite pra trás.

Holladiri, holladira                       Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
Holladiri, holladira                      Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
Un chitt noch wassa tsu.           E ainda acrescenta água.

Da gehn se bai de Milla hinn        Então foram até o Müller
De hot se nett' gefuhr:          Ele os instruiu com sabedoria:              
De sóod: "fakóoft dain wassa       Ele disse: "continue vendendo     
Nua waita bai de kohl."              Sua água para o leiteiro."
De kohl de wollt se all ni meh      O leiteiro não queria mais nada
Wall di war tsu chwach              Porque ele (leite) era muito fraco.
Was is dan dróon se mache?       O que se pode fazer?
Di chuld das wóod di bach.         A culpa era do arroio.

De kohl de hat gesacht              O leiteiro disse
Es hett ia niks gemach              Que não tinha problema
Wenn's blohs en bissie wassa weat/Se fosse só um pouquinho d'água
Het ea niks gesacht.                 Ele não diria nada.            
Do so eine geschichte               Uma história como esta
Das wóod em doch tsu grohs:      Para ele extrapolou:
Di fró hot bissie millich               A mulher tem pouco leite
Un das gassblech ima foll.           E a lata sempre cheia.

Solo (geschproch: "Das wóo        Solo (falado: "Isto era uma vez
awa mohl di millich!")                  o leite!")

Bis eine gute morgen                  Até que numa bela manhã
Da komm de kohl dort hinn           O leiteiro chegou lá
Un wollt di millich probe              E queria experimentar o leite
Un di fróo hot das gesihn            E a mulher viu isto
Di frau di hot mi'm kopp geschaft   A mulher usou a cabeça
Si bring di millich raus                 Trouxe o leite para fora
Un losst sich da mit falle             E se deixou cair com ele
Un chitt si alle aus.                   Derramando tudo.

So inn es lange tsait                  Assim num tempo longo             
Do gingt noch immer gut             Tudo ainda ia bem
Bis eine gute morgen                  até que numa bela manhã
Kommt de kohl noch di wut.         O leiteiro enfureceu.
De kohl hot's net meh ausgehall    O leiteiro não aguentou mais
Di frau di wart so frech               A mulher era muito malandra       
Si chitt di millich mit canek          Ela derrama o leite com caneca
Un's wasser mit dem blech.         E a água com a lata.

Holladiri, holladira                      Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
Holladiri, holladira                       Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu              Cada um ordenha sua vaca
Un chitt noch wassa tsu.            E ainda acrescenta água.

Solo (geschproch: "Dem ding no    Solo (falado: "Seguindo, o
honn se de awa tot geaiat!"         mataram de tanto irritar!"
"Sowas is awa dann chlimm!")        "Algo assim é cruel!")

Auf so aine geschichte                Sobre uma história destas          
Do wett ma góoned kluuch           A gente não entende
Ma soll doch selber maine             Deveria se pensar
Das weat doch wi der fluuch         Que isto fosse como praga
De khii do wóod de taiwel             Nas vacas havia o demônio
Sain memm das weat en heks        E as tetas enfeitiçadas
Hot draissich litta millich geb         Pois dava trinta litros
Iets gebt se nohr'me seks.            E agora somente mais seis.

Holladiri, holladira                        Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu               Cada um ordenha sua vaca
En ieda melkt sain khuu               Cada um ordenha sua vaca
Holladiri, holladira                       Holladiri, holladira
En ieda melkt sain khuu               Cada um ordenha sua vaca
Un chitt noch wassa tsu.             E ainda acrescenta água.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Kwatscherai

Hea das graveadne chteck do hia: Ouça a gravação aqui:



    Kwatscherai

    Wieffel mohl fallêere mea en haufe tsait mit kwatscherai? Un fa do en kwatschung óon fenge, is nua nodwennich sich tswói muule sich treffe un ónfenge iwa alles se kwatsche.
    Dan sêed de easchte:
    - Head mo, wiefel khenna host du?
    - Ai tswói guri un drai medcha. - Antwort de tswette.
    - Interessant: tswói guri un drai medcha. Host du dea es schon mohl foa geholl das es net di selwich kwantited is?
    - Io, awa du host mich net faschtann: Ich sóod het tswói guri un drai medcha un net de gêgentéel!
    - Ich sóodo doch es so. Du host mich net faschtann! - Sóod do de easchte so hallwa belaidicht.
     - Es kimmt io óoch net so genau druf óon. Awa iwa di kwantited host du wercklich woa recht.
      - Ia, un wall es net egól is, dan kann es net egól in de gantse welt sen. Denk mo nôo:  dann hon mea fill meh medcha uf de welt als guri. Un wi kimmt es dan?   
     De twsette kratst sain hoa, denkt bisie nôo, dan sêed'a:
     - Du host recht! Ia, awa mecht es dan so uf ge gans welt sen? Oda mecht es nohre hia in unsa wille so sen?
    De easchte wickellt saine criole mit em dunkle un chtarke fumm tsu, guckt so chepp unna sain dicke aue deckle raus, un tsied tief ochtum. Lekt dan de enn fon dem milie lóob ab un bapt de criole tsu. Chtecht en in's maul, macht'en óon, chmekt de damp, dan sêe'ra:
    - Wolle mea mo di rechnung mache, nua in unsa wille fa sihn di unnaschit tswischen de guri un med wo uf di welt komm sen in de letsten feneftsen ioa.
    - No iach dan. - Sóod de tswette. - Ich hon drai medcha un tswói guri. Du host ene guri un fia medcha, net?
    - Ne, ich hon ene guri un drai medcha.
    - So, dan nohre in unsa familie rechnung gibt es chon drai medcha meh als guri.
    - Ia wohl! - Sóod de easchte. - Awa do is dem Silfred sain familie, do khenne mea fill med ab tsie.
    - Silfred? Wasfare Silfred?
    - Ai de Costa Silfred. De hot nóin guri un khéen medche.
    - Un de Laipa August hot doch sechs guri un nohre en medche.
    - Un de Alwin hot nohre tswói guri.
    - Di witt fróo Anna hot    awa sieben medcha un nua tswói guri.
    - So ist es. - Sóod de easchte. - Wenn mea es uns foa holle, sihn ma das filaicht es bis meh guri gibt uf de welt als med.
    - Das is interessant. Mea rechne mo noh, dann wenn mea uns nommo treffe sihn'ma wi di unnaschit tswischen guri un med in unsa wille is. - Sóod de tswette.
    - Wii?
    - Ai rechne sóor'ich!
    - Rechne, ne, niemals!
    - Wie Niemals? Dan komme mea tsu gónics wenn mea em dings net noh gehn wi es mus sin.
    De easchte antwort:
    - Ai wall es is so: Sin mea hia fa se drinke oda se kwatsche? Los doch di guri  un di meed ruich gehn!
     - Ia, du host doch óoch sicha woa recht. Fa was solle mea di rechnung mache, gell?
    - Gast, noch en bia, sóore se mit samma. Un bis hait wisse se net ob es meh guri oda meh medcha in de wille gibt un fill wênicha ob es meh guri un meh med in de welt gibt. Es haupste is es awa dass'ie raus gefunn hon dass'ie en halleb chtunn gekwascht hon iwa phure kwatscherai.

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TRADUÇÃO:

    Conversa fiada

    Quantas vezes perdemos um monte de tempo com conversa fiada? e para iniciar um papo furado só é necessário se encontrarem dois burros e conversarem sobre tudo.
    Então o primeiro diz:   
    - Escuta aí, quantos filhos você tem?
    - Dois rapazes e três garotas. - Responde o segundo.
    - Interessante: dois rapazes e três garotas... Já reparou que não é a mesma quantidade?
    - Sim! Só que você não me compreendeu: eu disse que tinha dois rapazes e três garotas e não o contrário!
    - Eu disse isto assim, você não me entendeu! - Disse o primeiro meio magoado.
    - Também isto não vem ao caso. Mas sobre a quantidade você realmente tem razão.
    - Sim, e porque não é igual, então não pode ser  igual no mundo inteiro. Imagina: então temos muito mais garotas do que rapazes no mundo. E como isto fica?
    O segundo coça seus cabelos, pensa um pouco e diz:
    - Você tem razão! Mas, será assim no mundo inteiro? Ou será assim só aqui em nossa vila?
    O primeiro enrola seu palheiro com o forte e escuro fumo, olha atravessado pelos seus olhos de pálpebras espessas e respira fundo. Então lambe a aba da palha de milho do palheiro e fecha o mesmo. O enfia em sua boca, o acende, experimenta a fumaça e diz:
    - Vamos fazer a conta só em nossa vila par ver a diferença entre guris e meninas que nasceram nos últimos 15 anos.
    - Então está. - Disse o segundo. - Eu tenho três meninas e dois guris. Você tem um guri e quatro meninas, não?
    - Não, eu tenho um grui e três meninas.
    - Então, só em nossa conta no meio da família, já dá três meninas a mais do que guris.
    - Sim! - Disse o primeiro. - Mas aí tem a família do Silfredo, ali nós podemos descontar muitas garotas.
    - Silfredo? Qual Silfredo?
    - O Silfredo Costa. Ele tem nove guris e nenhuma menina.
    - E o Augusto Leiper tem seis guris e somente uma menina.
    - E o Alvino tem somente dois guris.
    - Mas a viúva Ana tem seis meninas e somente dois guris.
    - Assim é. - Disse o primeiro. - Se nós tomarmos em conta, talvez veremos que até existam mais guris no mundo do que meninas.
    - Isto é interessante. Vamos uma vez calcular, e quando novamente nos encontrarmos, veremos a diferença entre guris e meninas em nossa vila. - Disse o segundo.
    - Comooo?
    - Ué, eu disse calcular!
    - Calcular não, nunca!
    - Como nunca? Então nós dois não chegaremos nunca a nada se não seguirmos as  coisas como elas devem ser.
    O primeiro respondeu:
    - Porque é assim: estamos aqui para beber ou conversar. Deixa este guris e meninas em paz.
    - Sim, você com certeza também está com a razão. Por que teríamos que fazer na conta, não?
    - Garçom, mais uma cerveja, disseram juntos. E até hoje eles não sabem se existem mais guris ou meninas na vila e muito mais se existem mais guris ou meninas no mundo. O mais importante é  que eles descobriram que perderam meia hora fazendo conversa fiada.

domingo, 9 de outubro de 2011

Khenna sóon alla Dings numma 4 - Fa de Khenna's Tóoch

Ouça a gravação desta história aqui: hea das graveadne chteck do hia:

BISSIE GELÔ
KHENNA SÓN ALLA DINGS N° 4

Di khenna sóon io ima so interessante dinga, das ma so allsmohls misse foa bringe was s'e sóon.
Di khenna sin émfach di liebste, di hétsliste, di chmútsliste un di áusgelassendne companie wo ma hon kan. En kent bringt lewe un hoffnung dort wo alles iwaloss is.
khenna: mit denna hon mea en haufe dings se lénne, hauptsêchlich net óntsiichlich (malicioso) sin in de gedanke un in de aktsione. En kent hot ima sauwre plén un wea se fadreht sin ima di eltre, di brida un di onkle.
So, wolle mea dan mo noch phó chteka iwa di khenna fatsele:

DI BALE
Dem Richard sain muddi hot ihnem ima ausgelegt das ma bai de fremde nics falange tut, haptsêchlich gut dings.
Ene tóoh sin si parente besuche gang, un wi si sich umsied hat, wód de klene Richard faschwunn. Gláich wóra awa nommo tsurrik kom, mit sain kléen hentche foll balle. Eb sain muddi etwas són kont, hot ea gement:
- Muddi, ich hon gónics falangt! Hon nohre alles aus em thella geholl, ohne se falange.

********

Es Susiche wód televisom am guke mit sainem onkel, un in en téel fon em film wóre se am gallope mit de gáil. Do hot de onkel, fa mit ihnes hetse, gesód:
- Guk mo Susi, de man tut fon em gaul chnell ronna falle.
- Nê, onkel, de fellt net! - Hot es geschróid.
Un is fics dort hin geschprun un hot di televisom aus gemach.

********
KHENNA UN DI TSÁIT
Es khent, fa provire faschtehn was richtich di tsait gangung betáite ted, hot fa saine wowo gefrohd:
- Wowo, antwort mo: "háit is de moie fon gista?"

********
AUSTRUK
Wi es khent aus em institut kom is mit sain mamai, hot es en chen hoa-chnittung órwed foa geschpiichelt, un wód ene grosse pirulit am lutsche. Es hat ea grid fon em hoa chnitta. Do hot sain mámai gesód:
- Isoldiche, was hot dain mamai dich gellent sóon wen ma etwas geschenkt grid?
Es kent antwort:
- Onkel, geb ma noch ene pirulit?

********
CHENHAIT
Fa es klenes Théressie is es net chlimm aus leie was di grehst chenhait de welt is:
- Es is ene blume góode foll chmettaline wen di blume froh sin.

********
KHENNA HÊERE
Khenna hêere is es beste wo ma tun kan fa si richtich faschtehn. Fillmo, was fa uns en klénichkhéd is, fa si is es etwas grosses, wo dem iwa grosse chwírichkhéde bringt.
So is es mo passiad mit em klene Daniel. Ea wollt etwas hehlich fa sain mamai són, do horra óngefang se phischple in es oa un hot es anderes mit sain hentche tsu gehall. Di mamai wóod náigehrich gieb weche was ea ihnes oa tsu gehall hot. Un do hot se gefrod:
- Ia nach Daniel, weche was hillst du dann main oa tsu fa ich dich hêere?
Do hot de kléene guri geantwort:
- Du sehst ima das was ich deia són geht in en oa rin un in dem andere oa raus. Das wo ich deia sóod, will ich net hon das es aus dem andere oa raus geht, dessweche honn ich es tsu gehall.
(Ieda énlicchkáite sin nua cointsidense).

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TRADUÇÃO:

MEIAS VERDADES

CRIANÇA DIZ CADA COISA Nº 4

As crianças sempre dizem coisas tão interessantes, que as vezes temos que apresentar o que elas falam.
As crianças simplesmente são as mais queridas, as mais aconchegantes, as mais carinhosas e desprendidas companhias que se pode ter. Uma criança trás vida e esperança para tudo o que parece perdido. Crianças: temos sempre um monte de coisas a aprender com elas, principalmente não sermos maliciosos no pensamento e nas ações. Uma criança sempre tem pensamentos puros e quem as estraga são os pais, irmãos ou tios.
Então, vamos contar algumas histórias sobre as crianças:

AS BALAS

A mãe do Richard sempre lhe explicou que junto aos estranhos nunca se pede nada, principalmente guloseimas.
Um dia eles foram visitar os parentes, e quando a mãe menos esperava o pequeno Richard havia sumido. Logo ele estava de volta com sua pequena mãozinha cheia de balas. Antes que sua mãe pudesse dizer algo, ele disse:
- Mãe, eu não pedi nada! Somente tirei tudo do prato, sem pedir.

*************

A pequena Susie estava olhando televisão com seu tio, e no meio de uma parte do filme estavam galopando com cavalos. Então para inticar o tio lhe disse:
- Olha Susie, daqui a pouco o homem vai cair do cavalo.
- Não tio, ele não vai cair! - ela gritou.
E foi ligeiro até a televisão desligando ela.

*************

CRIANÇAS E O TEMPO

A criança para provar que entendia certinho o que significava a passagem do tempo perguntou ao seu avô:
- Vovô, responde: "hoje é o amanhã de ontem?"

*************
EXPRESSÃO
Quando a criança saiu da cabeleireira com sua mãe, aparentava um belo corte de cabelo e estava a saborear um enorme pirulito. Ela o havia recebido do cabeleireiro. Então sua mãe disse:
- Isoldinha, o que a tua mãe ensinou dizer quando se ganha um presente?
A criança pequena respondeu:
- Tio, me dá mais um pirolito?

*************

BELEZA
Para a pequena Terezinha não é difícil definir o que é a maior beleza da terra:
- é um jardim de flores cheio de borboletas quando as flores estão alegres.

*************
ESCUTAR AS CRIANÇAS
Ouvir as crianças é o melhor que se pode fazer para compreendê-las. Muitas vezes, o que para nós é algo insignificante, para elas é algo grandioso, o qual lhes trás muitas dificuldades.
Assim uma vez aconteceu com o pequeno Daniel. Ele queria cochichar algo para sua mãe, então ele começou a sussurrar num ouvido e fechou o outro com a mão. A mãe, ficou curiosa em saber o motivo de dele fechar o outro ouvido dela. Então ela perguntou:
- Então Daniel, por que está fechando meu ouvido para eu te escutar?
- Tu sempre dizes que o que eu falo entra num ouvido e sai noutro. O que eu estou a te dizer não quero que saia no outro ouvido, por isto estou fechando ele.
(Qualquer semelhança é mera coincidência.)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Canção em Alemão Hunsrickisch - De Schnoras (De Chnórres)

Ouça a canção aqui: Hea das liid do hia:

              HUNSRICKISCH                                PORTUGUÊS
         Schnorras (Chnórres)                           O Bigode
               Ireno e Dari                                     Ireno e Dari                                 

(Gechproch: "Ia dea lait, iets wett dea mohl gewóo was mohl passiat mit dem chnórres. Un do sinn're debai di hon phóo schnerres...)
(Falado: "Sim pessoal, agora vocês ficarão sabendo o que uma vez aconteceu com o bigode. E tem alguns no meio que tem uns bigodes...)

Main fróo di reclamiad                      Minha mulher ela reclama
Ieda tóoh, ieda chtunn                    Todo dia, toda hora
Main fróo di reclamiad                      Minha mulher ela reclama
Ieda tóoh, ieda chtunn                    Todo dia, toda hora
Main chnórres weat tsu grohs           Que meu bigode é grande demais
un ted chtinge nôo chnaps un fumm.  E que fede a cachaça e fumo.
Main chnórres weat tsu grohs           Que meu bigode é grande demais
un ted chtinge nôo chnaps un fumm.  E que fede a cachaça e fumo.

Das kann doch gónet sinn                Isto não pode ser
Wall ich rauch ia blohs charrutte        Porque eu só fumo charutos
Unn wenn ich en chnepsie drinke       E quando tomo um traguinho
Nua ieda fennef minute.                   É só a cada cinco minutos.
Main chnórres de tut kitsle               Meu bigode faz cócegas
Wenn ich main fróo kitsle gehn          Quando vou cocegar minha mulher
Awa hetslich garantir' ich                 Mas de coração eu garanto
Find se main chnórres doch chehn.    Ela acha bonito meu bigode.

Main fróo di reclamiad                      Minha mulher ela reclama
Ieda tóoh, ieda chtunn                    Todo dia, toda hora
Main fróo di reclamiad                      Minha mulher ela reclama
Ieda tóoh, ieda chtunn                    Todo dia, toda hora
Main chnórres weat tsu grohs           Que meu bigode é grande demais
un ted chtinge nôo chnaps un fumm.  E que fede a cachaça e fumo.
Main chnórres weat tsu grohs           Que meu bigode é grande demais
un ted chtinge nôo chnaps un fumm.  E que fede a cachaça e fumo.

Main fróo hot seea nait                    Minha mulher tem muito ciúme
Fon de med fon linie Nikell                 Das garotas da linha Nikell
Di en tóoh hon chon main chnórres     As quais um dia já com meu bigode
Um di titse romm gewíckellt.              Deram a volta pelos seus seios.
Ich will mich io net próole                 Também não quero ser ufano
Awa di med fon Gramóde                  Mas as garotas de Gramado
Honn gesóod:"Du mit dain chnórres    Disseram: "Você com seu bigode
Siest ia aus wi'n deputóde!"(gell?)     Até parece um deputado!" (não é?)

Main fróo di reclamiad                      Minha mulher ela reclama
Ieda tóoh, ieda chtunn                    Todo dia, toda hora
Main fróo di reclamiad                      Minha mulher ela reclama
Ieda tóoh, ieda chtunn                    Todo dia, toda hora
Main chnórres weat tsu grohs           Que meu bigode é grande demais
un ted chtinge nôo chnaps un fumm.  E que fede a cachaça e fumo.
Main chnórres weat tsu grohs           Que meu bigode é grande demais
un ted chtinge nôo chnaps un fumm.  E que fede a cachaça e fumo.

En tóoh wóod ich am chloofe            Um dia eu estava dormindo
Un main chloof wóod iwa chwea        E meu sono era profundo
Kommt di fróo so hehlich ón              Veio a mulher de mansinho
Chnait main chnórres mit de chea.     Cortando meu bigode com a tesoura.
Hat se main chnórres fassaut            Ela estragou meu bigode
Un das tut mir doch so lait                E isto me faz lastimar muito
Awa ich losse'n nommo wackse          Mas eu vou deixá-lo crescer de novo
Noch fill grehsa mit de tsait.             Com o tempo, bem mais comprido.

Main fróo di reclamiad                      Minha mulher ela reclama
Ieda tóoh, ieda chtunn                    Todo dia, toda hora
Main fróo di reclamiad                      Minha mulher ela reclama
Ieda tóoh, ieda chtunn                    Todo dia, toda hora
Main chnórres weat tsu grohs           Que meu bigode é grande demais
un ted chtinge nôo chnaps un fumm.  E que fede a cachaça e fumo.
Main chnórres weat tsu grohs           Que meu bigode é grande demais
un ted chtinge nôo chnaps un fumm.  E que fede a cachaça e fumo.

domingo, 31 de julho de 2011

Leitura Interessante: Tese para formular uma escrita para o Hunsrickisch

www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
L. Käfer; Mário Klassmann; Gerson R. Neumann; Karen Pupp Spinassé

Revista Contingentia, Vol. 2, novembro 2007, 73–87  73
ISSN 1980-7589
Fundamentos para uma escrita do
Hunsrückisch falado no Brasil

1


Cléo V. Altenhofen/Jaqueline Frey/Maria Lidiani Käfer/Mário S.
Klassmann/Gerson R. Neumann/Karen Pupp Spinassé
This  paper  discusses  a  foundation  for  writing  Hunsrückisch  as  a  German
immigrant  language  in  contact with Brazilian  Portuguese.  This  foundation
brings  together  the main conclusions obtained by  the Group  for  the Studies
of Hunsrückisch Writing  (Grupo  de Estudos  da Escrita  do Hunsrückisch –
ESCRITHU).  This  group  was  formed  at  the  Language  Institute  at  the
Federal  University  of  Rio  Grande  do  Sul  with  the  goal  of  proposing  not
only  a  system of orthographic norms  for  a  language  that  exists mostly  just
in oral forms, but also to encourage research on and linguistic education for
speakers  of  this  immigrant  language.  An  already  extant  literature  in
Hunsrückisch  includes  journal  and  magazine  texts  such  as  Sankt
Paulusblatt or  the Brummbär-Kalendar, published between 1931 and 1935,
as  well  as  texts  by  authors  such  as  Rambo  (2002  [1937-1961]),  Gross
(2001),  and  Rottmann  (1889  [1840]).  From  these  texts  various  writing
formats,  guidelines,  and  goals  for  an  orthographic  norm  are  analyzed,  be
they  for  the written  expression of  the  speakers or  for useful  instruments  in
the  transliteration  of  ethnotexts  within  the  ALMA-H  project  (Linguistic-
Contactual  Atlas  of  the  German  Minorities  in  the  La  Plata  Basin:
Hunsrückisch), with which ESCRITHU collaborates.
Key  words:  immigrant  minority  language;  Hunsrückisch;  orthography;  written
language; German teaching.
1 Introdução
  Com  as  discussões  em  torno  da  criação,  no  âmbito  do  IPHAN  (Instituto  do
Patrimônio Histórico  e Artístico Nacional),
2
  de  um Livro  das Línguas Brasileiras,  tem crescido  o  interesse  na  organização  social  das  cerca  de  180  línguas  indígenas  e aproximadamente 30 línguas de imigração faladas ao lado do português, no Brasil. Como uma dessas  línguas do  tipo alóctone ou de  imigração3 mais em evidência, ainda  recaem sobre o Hunsrückisch uma série de tarefas. Uma dessas tarefas advém justamente da sua condição de variedade dialetal  essencialmente  falada, que não dispõe de uma prática e registro escrito sistematizados, função que até hoje tem sido coberta pelas normas cultas do Hochdeutsch e do português. Entende-se, assim, por que o  falante de Hunsrückisch,
apesar de ser esta sua língua materna, sempre cogitou exclusivamente do português ou do
alemão-padrão para a função da escrita, a não ser em situações em que comumente aflora
o desejo de expressão da identidade e da cultura local, como nos texto humorísticos. Um
exemplo  que  ilustra  a  primazia  da  língua-padrão  para  a  função  escrita  são  os
Wandschoner  (panos  para  proteger  parede),  dos  quais  não  temos  conhecimento  de

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Letras, Avenida Bento Gonçalves, 9500
Caixa Postal 15.002, 91540-000 Porto Alegre, RS – Brasil. Telefone: (51) 3308-6790 Fax: (51)
3308-7303. E-mail: cvalten@pro.via-rs.com.br www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria L. Käfer; Mário Klassmann; Gerson R. Neumann; Karen Pupp Spinassé

Revista Contingentia, Vol. 2, novembro 2007, 73–87  74
ISSN 1980-7589
exemplar que apresente uma  frase ou ditado no dialeto  local, embora muitas vezes com
algum traço de coloquialidade.
  Neste sentido, pode-se admitir que, ao longo da história do contato alemão-português,
tenha  ocorrido  uma  espécie  de  diglossia,  como  os  lingüistas  chamam  o  uso  de  duas
variedades (alta e baixa) para funções sociais distintas. Isso significa, em outras palavras,
que se falava Hunsrückisch, porém se escrevia Hochdeutsch – a Schriftsprache, ou ainda
popularmente o “alemão gramatical” –, isto é, uma variedade aprendida na escola, com o
auxílio  de  uma  gramática  que  sistematiza  e  normatiza  essa  escrita. Com  a  política  de
nacionalização do Estado Novo  (1937-1945) e a conseqüente  repressão e  retrocesso do
ensino de alemão na escola básica e fundamental, a função de língua escrita passou a ser
assumida pelo português.
  Apesar  dessa  tendência  geral,  é  possível  identificar  um  conjunto  de  textos  em
Hunsrückisch  que  permitem  ao  menos  falar  de  uma  “pequena”  tradição  escrita  nessa
variedade. É verdade que o teor desses textos atende a um apelo fortemente humorístico
sobre um fundo metarreferencial que busca documentar e cultivar um modo de expressão
familiar  e  de  cunho  identitário.  Poderíamos  falar  por  isso  da  existência  de  etnotextos
escritos e de uma visão de mundo que  reflete a cultura do grupo étnico em questão. O
que, no entanto,  falta que  impeça e  justifique uma produção escrita mais significativa e
constante,  onde  antes  só  havia  a  oralidade?  Constitui  uma  premissa  deste  estudo  a
convicção de que cabe atribuir ao dialeto, antes de tudo, o mesmo status de língua a que
têm  direito  o  alemão-padrão  e  o  português  enquanto  línguas  históricas  com  existência
oral  e  escrita.  Isso  implica  naturalmente  a  criação  de  um  instrumento  inicial  de
sistematização dessa escrita, como ponto de partida.
  A  idéia  de  fixar,  ou  melhor,  normatizar  uma  escrita  para  o  Hunsrückisch  tem,
portanto, fundamento no próprio papel que a escrita exerce enquanto forma de expressão
e segue, como  tal, princípios próprios observáveis, por exemplo, na história de  todas as
grandes  línguas  internacionais. Todas  essas  línguas  tiveram, em  seus diversos estágios,
especialmente os  iniciais, variações muito grandes da grafia de uma mesma palavra ou
lexema  e,  só  com  a  prática  e  o  trabalho  de  sitematização  de  estudiosos,  foram
estabelecendo sua norma escrita como a conhecemos hoje.
  O presente artigo reproduz, de certa forma, esse caminho clássico. Pretende-se, com a
consideração da “pequena” tradição, a que já se aludiu, dos estudos existentes, bem como
de  uma  série  de  princípios  previamente  fixados,  propor  um  conjunto  de  normas  que
oriente uma  escrita  sistematizada do Hunsrückisch. Para  tanto,  criou-se no  Instituto de
Letras  da UFRGS  o Grupo  de Estudos  da Escrita do Hunsrückisch  (ESCRITHU) que
tem  por  objetivo  não  apenas  criar  esse  sistema  de  normas,  mas  também  refletir  e
fomentar o estudo e educação  lingüísticas dessa variedade que,  segundo estimativas de
pesquisas,  conta  com  cerca  de  500.000  falantes  só  no  Rio  Grande  do  Sul.
4
  O  grupo
ESCRITHU,  constituído  em  sua maioria por  falantes de Hunsrückisch  e pesquisadores
dessa  variedade  de  contato  com  o  português,  insere-se  no  projeto  ALMA-H  (Atlas
Lingüístico-Contatual  das Minorias  Alemãs  na  Bacia  do Prata: Hunsrückisch),  como
sub-projeto deste (v. ALTENHOFEN 2004).
2 Princípios de ortografia: por onde orientar a escrita do
Hunsrückisch?
  Antes de fixar ou optar por qualquer proposta de registro escrito de uma língua como
o Hunsrückisch, é preciso perguntar sobre os objetivos a que se destina tal escrita. Neste
particular,  podemos  identificar  diferentes  pontos  de  vista,  que  refletem  uma  série  de
dilemas, entre os quais se pode destacar:

1.°)  o  dilema  entre  “o  ideal  fonográfico  (uma  escrita  que  refletisse  regularmente  uma
forma  idealizada  de  pronunciar)  e  o  princípio  ideográfico  (que  opta  por  manter  a
etimologia, a notação das palavras em sua língua original)” (MORAIS 2003, p. 11).  www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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2.°) o dilema entre considerar a vinculação histórica com a matriz lingüística original e o
desejo de se afastar e diferenciar dessa origem, em virtude de uma identidade nova.

3.°) finalidades de leitura (receptiva) e de produçâo escrita (autora).

4.°)  a  finalidade  estritamente  comunicativa  e  prática  versus  o  propósito  didático-
pedagógico, com o intuito de desenvolver a reflexão e educação sobre a língua;

5.°)  definição  de  um  público-alvo  fechado  e  restrito  aos  usuários  da  língua  grafada
membros da comunidade  lingüística ou público-alvo aberto a não-falantes ou membros
de outras comunidades lingüísticas.

  O primeiro aspecto levanta, segundo Morais (2003), questões que vão muito além da
mera  codificação  de  relações  som-grafema.  Se  simplesmente  seguíssemos  a  tese  da
“escrita fonética” (=escrever como se pronuncia), que seus defensores acreditam ser mais
simples,  teríamos  ao  final  mais  de  uma  língua  escrita,  pois  é  diferente  a  natureza
interpretativa do som pelos diferentes falantes, assim como também variam as pronúncias
na  produçâo  oral  dos  falantes.  Conforme  enfatiza Morais  (2003,  p.  13),  “a  perfeiçâo
alfabética é uma ilusão”, seja qual caminho se adote, e “sempre as soluções encontradas
terão sido opções, soluções arbitradas que se transformaram em convenção, lei”.
  Neste sentido, o que o grupo ESCRITHU está propondo vai muito no sentido de fixar
“normas  ortográficas”  por  onde  se  possa  sistematizar  a  escrita  do  Hunsrückisch.
Evidentemente,  essas normas  seguem determinados objetivos  e opções mais  imediatos.
Mas será a recepção pelos usuários e a prática de escrita e leitura pelos falantes e demais
interessados  que  darão  legitimidade  a  essas  normas  de  grafia,  sugerindo  inclusive  as
alterações que couberem. Por esta razão, na tentativa de harmonizar os diferentes opostos
dos dilemas apontados acima, fixamos os seguintes critérios e objetivos:

a) Entende-se  a  escrita, acima de  tudo, como convenção e  regra  sistemática que, como
qualquer  sistema novo que  se  fixe, por mais  simples que  seja, precisa  ser aprendida
(neste  sentido,  importa o  resultado que a  leitura de um  segmento produz oralmente;
p.ex. se fixarmos que Johr ‘ano’ se lê como Rohr ‘cano’, a representação grafemática
do segmento é lida como tal, e não de outra forma, seguindo outro paradigma).
b)  A  proposta  não  se  direciona  apenas  a  falantes  de  Hunsrückisch, mas  pretende  ser
compreensível  também  a  membros  falantes  de  outras  variedades  do  alemão  (uma
escrita  puramente  fonética  baseada  no  português  excluiria  o  público  não-falante
nativo e aumentaria o vácuo entre o Hunsrückisch e o Hochdeutsch, não permitindo
por  exemplo  que  um professor de  alemão  fizesse  comparações  relevantes, para  fins
didáticos).
c) Distingue-se entre as habilidades de escrita e de leitura de textos produzidos de acordo
com as normas fixadas (a primeira certamente exige um grau de letramento e portanto
de familiaridade com o alemão escrito maior).
d) Vale ressaltar que o Hunsrückisch é entendido como “língua” distinta do Hochdeutsch
(alemão-padrão), embora se vincule a ele historicamente e por semelhança lingüística.
Quando  se  adota no Hunsrückisch  traços da  escrita  semelhantes  à do Hochdeutsch,
não  se  está  de  modo  algum  adequando  ou  adaptando  a  forma,  mas  sim  apenas
adotando  uma  convenção  que  atesta  uma  coincidência  de  formas  independentes,
apesar da semelhança.
e)  Não  se  considera  que  o  pré-conhecimento  de  elementos  gráficos  do  Hochdeutsch
esteja totalmente ausente. Pelo contrário, partimos do princípio de que os falantes de
Hunsrückisch  possuem,  naturalmente  em  grau  variado,  alguma  noção  prévia  de
convenções  da  escrita  do  alemão,  desde  sobrenomes  (Schneider, Müller, Neumann, www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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Käfer  etc.)  ou  inscrições  de  topônimos  ou  festas  observáveis  no meio  social,  até  o
acesso a publicações locais em alemão (Familien-Kalender, Sankt-Paulus-Blatt etc.).
f)  A  proposta  tem  por  isso  objetivo  didático,  no  sentido  de  que  visa  não  somente  a
instrumentalizar  o  falante  e  a  nós  próprios  para  o  registro  do Hunsrückisch,  como
também  fomentar a educação  lingüística dos  falantes sobre o papel e  funcionamento
de sua língua materna e de uma língua de modo geral.
g)  Reconhecem-se  pelo  menos  três  grandes  variantes  do  Hunsrückisch,  partindo  da
tipologia de Altenhofen (1996, mapa 6, v. anexo), a saber:

1. Hunsrückisch com traços [+ moselanos] (o tipo com maior número de traços dialetais
que o distanciam do Hochdeutsch): p.ex.  falantes de dat/wat  (predomina na maioria
dos  autores,  como  RAMBO  [1937-1961]  e  BRUMMBÄR-KALENDER  [1931-
1935]);
2. Hunsrückisch com traços [+ renanos] (segundo o estudo de Altenhofen (1996), o tipo
mais  falado):  p.ex.  falantes  de  das/was  (mais  comum  em  SPOHR  [vários]  e  em
GROSS 2001);
3. Hunsrückisch atenuado, com traços mais próximos do padrão: p.ex. falantes de /ai/ em
lugar de /e:/, como em Bein, (mais comum em FLACH 2004).

  O ESCRITHU respeita cada uma dessas variantes como legítimas e toma como regra
que cada autor utilize a sua variante materna, porém com as mesmas normas de escrita de
cada som específico.

h) A proposta destina-se inicialmente às finalidades internas do Grupo, mas, conforme já se
disse, será sua prática e utilização externa, através de uma série de testes e atividades
que,  eventualmente,  podem  ser  realizadas  (p.ex.  workshops,  publicação  de  textos
etc.), que lhe conferirá a eficácia desejada.
i) É uma das  intenções do ESCRITHU elaborar posteriormente um Dicionário  trilíngüe
Hunsrückisch-Hochdeutsch-Brasilianisch  (compreende-se  o  dicionário  igualmente
como instrumento de auxílio para consulta de dúvidas sobre grafia, como comumente
fazemos até mesmo no português e no alemão-padrão).
j) A escrita proposta servirá de base para a transliteração de dados, sobretudo etnotextos,
coletados pelo ALMA-H na rede de pontos do projeto (ao todo, 38).
k)  A  presente  proposta  de  escrita  considera  a  tradição  pré-existente  e  a  vinculação
histórica  e  lingüística  ao  alemão,  de  onde  proveio  (critério  genético). Do  ponto  de
vista  da  gestão  da  língua  pela  comunidade  de  fala,  ao  contrário,  reconhece-se  o
status de brasilidade da  língua de  imigração Hunsrickisch, com  língua brasileira que
adquiriu sua autonomia e traços particulares no novo meio.

  Segue  a  análise  e  discussão  de  alguns  problemas  e  opções  envolvendo  diferentes
aspectos  passíveis  de  sistematização  no  registro  escrito  de  sons  do  vocalismo  e
consonantismo, bem como de aspectos tipográficos e formais. Casos mais problemáticos
e polêmicos, para os quais não existe ainda consenso, serão resolvidos através da prática
de uso das normas ortográficas pelos diferentes usuários.
2 Aspectos tipográficos
a) Substantivos com inicial maiúscula ou minúscula

  Uma  das  primeiras  decisões  que  cabe  tomar  envolve  o  registro  da  inicial  dos
substantivos.  Poderia  alguém  alegar  que  o  uso  geral  de  inicial  minúscula,  como  no
português,  facilitaria a escrita. Outros, porém, como por exemplo aprendizes de alemão
têm  apontado  a  vantagem  de,  na  leitura,  reconhecer  e  identificar  mais  facilmente  os
componentes da frase, na medida em que o substantivo aparece discriminado pela inicial www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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maiúscula. Não nos parece problemático optar por esta última  forma, principalmente se
pensarmos no  caráter pedagógico que queremos  imprimir  ao  trabalho  com a escrita do
Hunsrückisch.  Além  disso,  tal  decisão  é  respaldada  quase  unanimemente  na  tradição
(vejam-se  RAMBO  [1937-1961],  FLACH  2004,  GROSS  2001,  MÜLLER  1996,
BRUMMBÄR-KALENDER [1931-1935], COLLISCHONN [vários], dentre outros).

b) Palavras compostas

  O  mesmo  argumento  da  compreensibilidade  do  escrito  vale  para  as  palavras
compostas  que,  a  nosso  ver,  deveriam  respeitar  a  forma  aglutinada,  por  constituírem
unidades semânticas próprias (p.ex. Reenscherrem ‘guarda-chuva’, e não Reen scherrem,
Tischtuch  ‘toalha  de mesa’,  e  não  Tisch  tuch). A  forma  separada  pode  dar margem  a
dúvidas e ambigüidades, como p.ex. em spritz bier ‘Spritzbier, a cerveja caseira’.

c) Empréstimos do português: empréstimos integrados ou estrangeirismos

  No caso dos empréstimos do português, maciçamente encontrados no Hunsrückisch,
colocam-se  dificuldades  em  exemplos,  onde  a  ortografia  do  português  difere
substancialmente  da  do  sistema  de  referência  do  alemão  e,  por  conhecimento  do
português,  tendêssemos à ortografia da  língua de origem. Um exemplo que  ilustra esse
impasse é o  lusismo calçada, que no Hunsrückisch pode aparecer como estrangeirismo
(quando mantém a mesma  forma da  língua-fonte) – neste caso, die Calçada – ou como
empréstimo  já  integrado  ao  sistema  fonológico  do  Hunsrückisch  –  neste  caso,  die
Kalsoode.  Tal  se  observa  também  em  galicismos  como  die  chamant  ‘simpático’  (fr.
charmant). Como proceder nesses casos?
  Seguindo os princípios fixados, poderíamos sugerir que os estrangeirismos seguem a
ortografia  da  língua  de  origem,  e  os  empréstimos  integrados  as  regras  da  escrita  do
Hunsrückisch. A  isso,  porém  é  preciso  somar  a  força  do  uso  corrente  e  recorrente  de
determinada forma. A prática ainda nem sempre tem sido tão conseqüente, como mostra
o  título de um  texto de W. H. Collischonn, na  coluna Der Friedolin,  intitulada Uff de
Calçode  abgeritscht.  Nos  parece  que  a  sistematização  proposta  pode  ajudar  como
orientação,  embora  se  deva  reconhecer  que  esses  casos  são  fortemente  regulados  pela
regra do uso, a qual explica por exemplo grafias como Chor  ‘coral’, ao  invés de Kohr,
que causaria forte estranhamento no leitor. Nessa linha de raciocínio, é preciso levar em
conta  também  grafias  como  a  do  exemplo  Calçode.  A  prática  do  uso  recorrente
certamente irá regular esses casos.
  Vale  ressaltar  que,  na  nossa  concepção  de  escrita,  entendemos  que  ao  processo  de
leitura  de  um  texto  subjaz  um  diálogo  intertextual  e  intercultural,  no  qual  o  leitor
compara  e  associa  conhecimentos  e  palavras. Ou  seja,  um  texto  em Hunsrückisch  não
existe no vácuo, mas dialoga com outros  textos  inclusive  textos escritos em português e
Hochdeutsch.
3 Vocalismo
3.1 Duração da vogal
  No português, não há distinção entre vogais breves e longas, e conseqüentemente, não
há grafemas no português para marcar esta distinção, o que nos  leva a  recorrer a  regras
do alemão. www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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3.1.1 Vogais breves
a) No  alemão,  vogal  seguida  de  duas  consoantes  é  pronunciada  com  duração  breve.
Essa  regra  é  seguida  de  maneira  mais  ou  menos  conseqüente  pelos  autores  que
escrevem em Hunsrückisch:

“Wenn  de  alte Vetter Pitter  sei  gross Brill  uff  die Nas
gesetzt  hot”  ‘Quando  o  velho  tio  Pedro  acavalava  os
óculos sobre o nariz’ (RAMBO 2002, v. 1, p. 156)
“Donnaschtags Mittags  hatt’a  de Zug  geholl  bis Santa
Maria“  ‘Quintas-feiras à  tarde pegava o  trem até Santa
Maria’ (FLACH 2004, p. 102
“Die Kinna wolle, die Fraa will, unn de Mann will nix
demit wisse. Unn dann?“ ‘As crianças querem, a mulher
quer  e o homem não quer  saber de nada disso. E daí?’
(SPOHR, Familien-Kalender 2006, p. 130)

  A  regra  aplica-se  de  modo  geral  também  a  exemplos  monossilábicos  muito
freqüentes,  como  uff,  unn  e  honn. Talvez,  aqui,  o  uso  e  a  prática  possam  sugerir  uma
forma simples.

b) Um caso particular de aplicação dessa regra são os exemplos decorrentes da adição de
uma  vogal  epentética,  como  em Milch  ‘leite’,  que  se  torna Millich,  ou  Berg  var.
Berch ‘morro’, que fica Berrich. A duplicação da consoante, para marcar que a vogal
é  breve,  é  usada  pela  maioria  dos  autores,  como  Spohr  (p.ex.  Kerrich,  Familien-
Kalender  2006,  p.  106)  e  principalmente  Rambo  (Kerrich,  2002,  v.  2,  p.  49;
Millichstross, 2002, v. 1, p. 81). Em nossa proposta, apesar da inclinação inicial para
a forma simples, por questões, decidiu-se por fim pela aplicação sistemática da regra
apresentada em a).

c) As vogais átonas não oferecem grandes problemas, a não ser a vogal  /a/ em final de
sílaba,  que  em  muitas  palavras,  e  inclusive  em  nomes  e  sobrenomes  (ex.  Peter,
Schneider, Käfer),  é grafada  como <-er>. Aqui, parece haver bastante divergências.
Alguns  autores  chegam  a misturar  as  formas  <-er>  e  , muitas  vezes  no mesmo
texto. De modo geral, em Rambo, Rottmann e Gross predomina o emprego de <-er>,
enquanto que Spohr e Collischonn variam o emprego entre <-er> e . Exemplos:
imma  ‘sempre’, awer var. awa  ‘mas’, unsa var. unser  ‘nosso’  (COLLISCHONN  in:
Der Friedolin, 2006). Uma exceção é Flach, que emprega  sistematicamente a grafia , inclusive no título de seu livro Unsa gut deitsch Kolonie.

  Um  problema  maior  aparece  em  contextos  de  sílaba  tônica.  Evidentemente  que  a
grafia de um pronome  como Wer  ‘quem’  tem de  fato o efeito desejado, na medida em
que a sua pronúncia conhecida da escrita do padrão coincide com a do Hunsrückisch. O
que  fazer, no entanto´, com palavras como mehr var. meh  ‘mais’, Meer  ‘mar’, mir var.
mea ‘a mim’ e a forma para o pronome pessoal mea var. mia ‘nós’.
  Nossa opção é pelo emprego de <-er> em posição pós-tônica  (p.ex. unser  ‘nosso’,
Fenster  ‘janela’,  awer  ‘mas’)  e  de    em  posição  tônica  (p.ex. Weat  ‘valor’,  heat
‘ouve’), ressalvadas as exceções fixadas pelo uso recorrente. A opção por <-er> se deve à
sua relação lógica com a formação do plural e da declinação de modo geral, onde aparece
um  /r/. Exemplo: unsre Fenstre  ‘nossas  janelas’. Este argumento está em  sintonia com
nosso propósito de  fomentar, com esse  trabalho, a  reflexão e a educação  lingüística em
torno da língua materna. www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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d) Os mesmos argumentos usados para o caso anterior valem, em parte,  também para a
grafia de (como em vor ‘antes, na frente’, Motor ‘motor’). Flach registra ,
seguindo  a mesma  tendência  para  <(e)a>. Nossa  dúvida  novamente  recai  sobre  os
monossílabos, onde  já  existe  a grafia <-ohr>,  como  em Rohr  ‘cano’, Ohr  ‘orelha’.
Estendemos  essa  escrita  por  analogia  a  contextos  resultantes  de mudança  vocálica,
como em Johr ‘ano’, Hohr ‘cabelo’, wohr ‘verdadeiro’, com a mesma justificativa da
concordância sintática, p.ex. de plural, como em die Johre ‘esses anos’, onde aparece
o /r/. Essa grafia aparece também em Rambo e Rottmann:

“Et war eso em Määdche
Vunn neinzeh – zwanzig Johr,
Hatt, wie Keschdanieschilze,
So braune, glatt Hohr.”5
 (ROTTMANN 1950, p. 144)

e) Por fim, o mesmo tratamento de d) pode ser dado aos segmentos (como em nur
var. nurre, nore ‘somente’, pur ‘puro’, Schnur ‘fio’, Natur ‘natureza’) e <-uhr> (p.ex.
Uhr ‚relógio, hora’, Fuhr ‚carreiro ao arar’).
3.1.2 Vogais longas
  Para  marcar  que  a  vogal  é  longa,  o  alemão  oferece  duas  grandes  regras  que  são
seguidas pelos autores e também por nós:

a) Vogal diante de consoante simples pronuncia-se como longa, em oposição à regra a)
para  vogais  breves.  Exemplos:  Lewe  ‘vida’  (compare-se  Lewwer  ‘fígado’),  brige
‘brigar’ (compare-se com Bricke ‘pontes’).

  Um problema sobre o qual muitas vezes não há muita clareza ocorre nos casos onde o
Hochdeutsch usa o grafema <ß>, que obviamente é excluído da escrita do Hunsrückisch.
Contudo,  ao  escrever  palavras  como  alemão  Straße  ‘rua’  e  groß  ‘grande’  em
Hunsrückisch Stross ou gross, os autores violam a  regra da vogal breve diante de duas
consoantes,  deixando de marcar oposições como Stros  ‘rua, estrada’ e Stross  ‘garganta’.
Às vezes essa oposição vem acompanhada apenas de variação simples da mesma palavra,
como  em Hoss  var. Hos  ‘calça’  e Hoos  ‘coelho’. É verdade que o  contexto  auxilia na
compreensão, mas o exemplo mostra a perspicácia dos falantes em marcar a distinção, ou
através  da  duração  (/o/  longo  ou  breve),  ou  através  da  abertura  da  vogal  (/o/  longo
fechado ou aberto).
  Outro problema decorre da espirantização de /g/, resultando em um som equivalente a
(v. abaixo no consonantismo). A vogal que antecede de modo geral é breve,
p.ex. em  spreche  ‘falar’ e  lache  ‘sorrir’. Com a espirantização,  surgem exemplos como
Kuchel ‘bola’, Kuche ‘cuca’ ou Vochel var. Vohl ‘pássaro’, que pela regra seriam breves,
mas  se  pronunciam  como  vogais  longas. Optamos  aqui  em manter    simples,  por
maior economia e por achar que não causa maiores problemas na leitura.

b) Vogal  diante de   pronuncia-se  como  longa. Exemplos:  hohl  ‘oco’  (compare-se
holl ‘pega’), Stihl ‘cadeiras’ (compare-se Stiel ‘cabo’ e still bleiwe ‘ficar parado, não
se mexer’), stehn ‘estar parado, em pé’ (compare-se Stenn ‘estrela’, ‘testa’).

  Um problema dessa  regra é que exige de quem escreve um grau de  letramento e de
familiaridade  com  a  escrita  do  alemão,  como  aliás  o  conjunto  da  proposta.  Por  outro
lado, para a leitura parece não haver essa mesma dificuldade. Como qualquer língua, uma www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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boa escrita pressupõe uma boa experiência de leitura. Outras opções, além das já citadas,
para marcar as vogais longas são encontradas na tradição. São as seguintes:

c) É comum o emprego do grafema para marcar  /e:/  longo,  sobretudo nos casos
em  que  existe  a  variante    (tipo  3  do Hunsrückisch, mais  próximo  do  padrão),
como em Steen var. Stein ‘pedra’ (compare-se stehn e Stenn acima), kleen var. klein.
Inclui-se aqui toda a série de verbos com sufixo –iere vs. –eere, como em telefoneere
var.  telefoniere  ‘telefonar’,  schmeere  var.  schmiere  ‘esfregar,  untar’.  Por  fim,  em
alguns  casos  onde  o Hochdeutsch  apresenta  vogal  longa  arredondada  /ö/,  costuma
aparecer,  nos  textos  em  Hunsrückisch,  a  grafia  com  ,  p.ex.  scheen  ‘bonito’
(compare-se Hdt. schön). São poucos exemplos. A nossa posição é  favorável ao uso
de que julgamos auxiliar na clareza sobretudo de monossílabos.
d)  O  emprego  de  ,  inclusive  como  variante  de  pronúncia,  aparece  generalizado.
Exemplos:  lieb  ‘querido’, Besemstiel  ‘cabo  de  vassoura’,  Lied  ‘canção’,  namoriere
var.  namoreere  ‘namorar’.  Como  no  caso  de  /ö/,  o  grafema    pode  assumir  a
mesma  função  para  distinguir  palavras,  sobretudo  monossilábicas,  onde  o
Hochdeutsch  possui  <ü>,  p.ex.  mied  ‘cansado’  (compare-se  Hdt.  müde),  Brieder
‘irmãos’  (compare-se  Hdt.  Brüder).  Rambo,  como  alguns  outros  autores  isolados,
emprega  às  vezes  para  esses  casos  ainda  .  Isso  nos  parece  uma  grafia
desnecessária, pois  já está coberta pelo . Nos contextos onde segue , opta-se
por simples, pois o já marca a duração longa.
e) Talvez uma das maiores dificuldades na escrita do Hunsrückisch seja a grafia para /o/
aberto  e  longo. A maioria  dos  autores  emprega,  na  verdade,  a  variante  /a/  longo,
grafando-a muitas vezes com dois . Esta opção coincide de  fato com a variante
do  tipo 3 do Hunsrückisch, mais próximo do padrão; contrasta porém com o que, na
verdade,  se  fala  com mais  freqüência nas  colônias, onde,  como mostra o  estudo de
Altenhofen  (1996,  v.  mapas  26,  27,  28,  54,  56,  59,  69),  a  partir  de  um  corpus
representativo de dez localidades situadas nas colônias novas e velhas do Rio Grande
do  Sul,  predomina  o  uso  de  /o/  longo  e  aberto  no  dia-a-dia.  Como  registrar  esta
pronúncia grafematicamente?

  A opção dos autores por ou ,  representando quase a maioria  (p.ex. aarich
‘muito’,  aach  ‘também’,  Taach  ‘dia’,  Fraa  ‘mulher’,  Gaade  ‘jardim’,  como  em
Rottmann  e  Rambo),  deve-se  em  parte  a  uma  tradição  anterior,  que  usava
prioritariamente , e à falta de um grafema mais apropriado para o som de /o/ longo
aberto. Nossa posição, respeitando o emprego de ou por quem fala o tipo 3 de
Hunsrückisch,  foi  encontrar  um  grafema  para  essa  vogal  /o/  aberta  e  longa.  Nos
defrontamos com duas opções:

1. uso de para contrastar com   fechado  longo diante de consoante simples ou
. Exemplos: Galinhoode var. Galinhade  ‘galinhada’, Goode var. Gaade  ‘jardim,
horta’  (compare-se  Kote  ‘madrinhas’),  além  dos  exemplos  já mencionados  oorich,
ooch, Tooch e Froo. O emprego de aparece, em alguns autores como Rambo,
Rottmann  e  Spohr,  para  /o/  fechado,  em  analogia  ao  que  se  pratica  com  ,
escrevendo p.ex. Schoof (Rottmann 1950, p. 147), noore (Spohr 2006, p. 106), Bloos
var. Blas ‘bexiga’ (RAMBO 2002, v. 1, p. 118).
2. uso de <ó>, valendo-se de um acento agudo, como no português. Esta opção aparece
esporadicamente,  como  em Collischonn. Cogitamos  também  dessa  forma  de  grafia,
mas os exemplos nos pareceram muito esdrúxulos e estranhos ao público  leitor não
acostumado: órich, óch, Fró, Tóch etc.

  Após muita discussão, optamos pela forma , convencionando que esta sempre se
pronuncia  como  /o/  longo  e  aberto. A  oposição  é  necessária  para  distinguir  exemplos
como Rood ‘roda’ e rot ‘vermelho’, Boohn var. Bahn ‘cancha’ e Bohn ‘feijão’. www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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3.2 Vogais desarredondadas
  Diferentemente  do  Hochdeutsch,  não  ocorrem  no  Hunsrückisch  as  vogais
arredondadas /ö, ü, ä/, que são pronunciadas respectivamente como /e, i, e/. Optamos, por
isso, pelos grafemas e ,  salvaguardados os casos discutidos acima em  relação à
e , quando a vogal for longa. Exemplos. here ‘ouvir’ (Hdt. hören), Glick ‘sorte’
(Hdt. Glück), Medche  (Hdt. Mädchen), mais os casos em que a grafia   (p.ex. bees
‘brabo’ [Hdt. böse]) ou (p.ex. mied ‘cansado’ [Hdt. müde]) ajuda a marcar a vogal
longa (v. 3.1.2 regras c) e d)). A literatura em Hunsrückisch ainda registra ocorrências de
<ä>, principalmente Rambo e Rottmann  (p.ex. Männer  ‘homens’, ao  invés de Menner).
Tal como no caso de <ß> achamos que se  trata de um grafema dispensável, além de ser
exclusivo do sistema ortográfico alemão, portanto estranho ao usuário que se alfabetizou
basicamente em português.
3.3 Ditongos
  Além dos ditongos decrescentes  /ea, oa, ua/  resultantes da vocalização de um  /r/,  já
tratados acima, destacam-se ainda os seguintes casos:

a) Opção pela grafia : presente em diversos sobrenomes, nos parece adequado optar
pela  forma    em  lugar  de  ,  como  fazem  alguns,  quando  escrevem  em
Hunsrückisch. Nos parece que basta convencionar que sempre se pronuncia /ai/,
exceto  em  estrangeirsimos  do  português  (p.ex.  de  Pai  ‘papai’)  ou  exemplos
consagrados  pelo  uso,  como  Mai  ‘maio’,  e  que  isso  não  representa  maiores
problemas,  além  de  didaticamente  facilitar  posteriormente  no  ensino  de  alemão-
padrão  como  língua  estrangeira. Exemplos:  Schneider  ‘alfaiate’,  fein  ‘fino,  chique’,
heit ‘hoje’, Leit ‘pessoas’, Ei var. Eu ‘ovo’, Feier ‘fogo’.
b) Opção pela grafia :  Aplicam-se aqui os mesmos argumentos usados em relação
a . O emprego de poderia deixar dúvidas sobre a qualidade da vogal /o/, se
fechada  ou  aberta.  Já  a  marcação  da  abertura  com  acento  (<ói>)  viola  outros
princípios  mencionados  anteriormente.  Os  exemplos  não  são  tão  numerosos,
sobretudo considerando a sua substituição por nos tipos 1 e 2 do Hunsrückisch,
onde é visto como marca do alemão-padrão (feines Deitsch ‘alemão fino’). Exemplos:
Neumann  ‘um  sobrenome conhecido’, neun var. nein  ‘nove’, Eu var. Ei  ‘ovo’, zweu
var. zwei ‘dois’, Meu var. Mei ‘visita’, heut ‘hoje’, Leut ‘pessoas’.
c) A  grafia  de    não  oferece maiores  problemas,  dada  a  sua  coincidência  com  o
português.  Exemplos:  Haus  ‘casa’,  Maus  ‘camundongo’,  raus  ‘para  fora’,  Haut
‘pele’, Maul  ‘boca’, haue  ‘bater’  e  também nos  casos onde é variante do  tipo 3 do
Hunsrückisch, mais próxima do Hochdeutsch (p.ex. Baum var. Boom ‘árvore’, auch var.
ooch ‘também’).
d) O mesmo vale para a grafia . Os exemplos, porém, são mais raros, muitas vezes
de empréstimos do português: Teekui ‘cuia de chimarrão’, Lui ‘abreviatura de Luís’.
4 Consonantismo
  A grafia das consoantes segue, em nossa proposta, a tendência das regras do alemão,
por motivos que  já  foram explicitados. Os casos mais polêmicos além das vocalizações
de  /r/ e da  função de para alongar a vogal precedente  já  foram discutidos. Para os
seguintes  contextos,  trata-se de  convencionar que  “grafema x  se pronuncia como x”, o
que  para  a  leitura  não  traz  grandes  problemas,  mas  para  a  escrita  exige  certa
familiaridade com o texto escrito. É o caso dos pares e (Vater ‘pai’, fetter ‘mais
gorduroso’, Vetter  ‘primo’),  sobretudo  no  prefixo  ver-  que  convencionamos  com  duas
variantes possíveis, ve- e fa- (p.ex. vestehn var. fastehn ‘compreender’). www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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  O  quadro  final  resume  os  grafemas  utilizados  e  serve  como  uma  espécie  de  guia.
Destes, cabe destacar os seguintes exemplos mais discutíveis:

a) tem sempre pronúncia oclusiva (p.ex. gille ‘valer’); quando é aspirado, escreve-se
como (p.ex. richtich ‘correto’, Kuchel ‘bola’).
b) , e pronunciam-se, é verdade, com certo ensurdecimento. Seus correlatos
surdos , e

acrescentam muitas vezes um  traço de aspiração. Exemplos:
koote ‘jogar cartas’ vs. Goode ‘jardim, horta’, picke ‘picar’ vs. bicke ‘agachar-se’.
c)   traduz a consoante velar (no fundo da garganta), como em jinger ‘mais jovem’,
salvo exceções em que coincide com , como em Bank ‘banco’.
d) preferimos   e   à  escrita   e , por  resultar no mesmo efeito de
pronúncia pelo leitor, assim como também pela sua maior economia.
e) ocorre diante e depois das demais consoantes e de vogal: Schul ‘escola’, fosch
‘forte’, veschreiwe ‘receitar’, schneide ‘cortar’, schlicke ‘engolir’, schmeisse ‘atirar’.
f)   representa dois  sons  inexistentes no português,  seja palatal, como em  ich  ‘eu’,
richtich  ‘correto’,  schlecht  ‘ruim’,  seja  velar,  como  em  noch  ‘ainda’,  Tischtuch
‘toalha  de  mesa’,  jachte  ‘caçar’,  Hietche  ‘chapéuzinho’  (compare-se  Hittche
‘cabaninha’)
g) casos de mera convenção, pelo menos para a leitura são as pronúncias de como /f/
(p.ex. Vater  ‘pai’),   e   como  /ts/  (p.ex. Zeitung  ‘jornal’, Katz  ‘gato’),
como /v/ (Wasser ‘água’, Wowwo ‘vovô’).
h) o mesmo vale para e , e (v. exemplos abaixo).
i) pode  ser  interpretado como ,  tornando a vogal precedente curta. Exemplo
Mick ‘mosca’.
5 Resumo da proposta de escrita para o Hunsrückisch
  Resumindo a análise dos aspectos tipográficos, do vocalismo e do consonantismo que
compõem  uma  proposta  de  escrita  do  Hunsrückisch,  podemos  apresentar  o  seguinte
quadro em forma de exemplificação, pressupondo, é claro, que os exemplos falam por si
e  que  a  sua  implementação  depende  naturalmente  de  um  treinamento  prévio,  e  que  a
prática e o uso irão determinar as adaptações ainda necessárias.

  Aspectos tipográficos:

·  substantivos  com  inicial maiúscula:  das Fest  ‘a  festa’  (compare-se  fest  ‘preso,
fixo’), de Brige ‘briga’ (compare-se brige ‘brigar’).
·  palavras compostas escritas junto: Blitzlamp ‘lanterna’, Dickkopp ‘cabeçudo’.
·  escrita  dos  estrangeiros  como  na  língua-fonte:  die  Calçada  ‘a  calçada’,  de
Milho  ‘o  milho’,  de  Show  ‘o  show’,  de  Jorge  ‘o  Jorge’,  die  Corrupção  ‘a
corrupção’.
·  empréstimos  integrados  seguindo as regras do Hunsrückisch: die Kalsoode  ‘a
calçada’,  de Miljekolwe  ‘a  espiga  de milho’,  de  Schosch  ‘o  Jorge’  (cf.  francês
Georg), die Korruption ‘a corrupção’.

  Vogais breves:

·  vogal  diante  de  duas  consoantes:  kalt  ‘frio’,  holl  ‘pega’,  Stenn  ‘estrela,  testa’,
Land  ‘terra’,  Stross  ‘garganta’,  Fest  ‘festa’,  lenne  ‚aprender’,  bringe  ‚trazer’,
krinse ‚resmungar’.
·  duplicação da  consoante  em  contextos de adição de vogal  epentética: Millich
‘leite’, Berrich ‘morro’. www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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·  <-er> em final de palavra: immer ‘sempre’, Kinner ‘crianças’, Menner ‘homens’,
Fenster  ‘janela’,  Lehrer  ‘professor’, Wasser  ‘água’,  Lewwer  ‘fígado’,  scheener
‘mais bonito’, hetter ‘mais alto, mais duro’.

  Vogais longas:

·  vogal diante de consoante simples pronuncia-se longa: gros ‘grande’, Stros ‘rua’,
ruwe  ‘chamar’,  Lewe  ‘vida’,  Bower  ‘abóbora’, Buwe  ‘rapazes’, Assude  ‘açude’,
blumich ‘floreado’, brige ‘brigar’.
·  vogal diante de pronuncia-se longa: hohl ‘oco’, stehn ‘estar em pé’, Kuhstall
‘estábulo’, Schuhbennel ‘cadarço do sapato’.
·  diante de : Kuche ‘cuca’, kluch ‘inteligente’, Kuchel ‘bola’.
·  fechado diante de : Vochel ‘pássaro’.
·    (/i/  longo)  lieb  ‘querido’,  Spiel  ‘jogo’,  mied  ‘cansado’,  Lied  ‘canção’,
schmiere ‘passar em algo, esfregar’, telefoniere ‘telefonar’.
·    (/e/  longo)  kleen  ‘pequeno’,  scheen  ‘bonito’,  Reen  var.  Reeche  ‘chuva’,
schmeere ‘esfregar’, telefoneere ‘telefonar’.
·    (/o/  longo  aberto)  Goode  ‘jardim’,  Froo  ‘mulher’,  Tooch  ‘dia’,  woorem
‘quente’,  Groos  ‘grama’,  soohn  ‘dizer’  (exceção:  prefixo  on-,  onmache  ‘ligar’,
onbinne ‘amarrar’).
·  (/a/ longo) Gaade ‘jardim’, Fraa ‘mulher’, Taach ‘dia’.

  Ditongos:

·  Schneider  ‘alfaiate’,  fein  ‘fino’, heit  ‘hoje’, Leit  ‘pessoas’, Ei var. Eu  ‘ovo’,
Feier ‘fogo’.
·    Neumann  ‘um  sobrenome  conhecido’,  neun  var.  nein  ‘nove’,  Eu  var.  Ei
‘ovo’, zweu var. zwei ‘dois’, Meu ‘visita’, heut ‘hoje’, Leut ‘pessoas’.
·    Haus  ‘casa’,  Maus  ‘camundongo’,  raus  ‘para  fora’,  Haut  ‘pele’,  Maul
‘boca’, haue ‘bater’.
·  Teekui ‘cuia de chimarrão’, Lui ‘abreviatura de Luís’.
·    em  sílaba  tônica:  Weat  ‘valor’,  mea  ‘nós’,  Tea  ‘porta’,  Schea  ‘tesoura’
(exceções: leer ‘vazio’, Meer ‘mar’, Lehr ‘ensinamento’)
·  <-ohr, -or> com pronúncia de /oa/:  Rohr ‘cano, mangueira’, wohr ‘verdadeiro’,
Johr ‘ano’, Ohr ‘orelha’, Hohr ‘cabelo’, também vor ‘antes’.
·  <-uhr, -ur> com pronúncia de /ua/: Uhr ‚relógio, hora’, Fuhr ‚carreiro ao arar’,
também pur ‘puro’, Natur ‘natureza’.

  Consoantes:

·    jedes  Johr  ‘todos  os  anos’,  Jacke  ‘casaco’,  Jookob  ‘Jakob’,  Griensje
‘salsinha’, Bliesje ‘blusinha’, Miljehitt ‘paiol’.
·    (em  sílaba  tônica) Zeitung  ‘jornal’, Zimmer  ‘quarto’, Zeich  ‘roupa’, Zucker
‘açúcar’,  zackre  ‘arar’,  vezehle  ‘conversar’,  zurick  ‘de  volta’,  zwerich  ‘diagonal, mal-
educado’, Zwiwwel ‘cebola’.
·    (em posição pós-tônica) Katz  ‘gato’, Hetz  ‘coração’, Kotz  ‘vômito’,  spritze
‘respingar, vacinar’, kitzlich ‘coceguento’, putze ‘limpar’.
·    sauwer  ‘limpo’,  Kees  ‘queijo’,  Kuss  ‘beijo’,  sammle  ‘colecionar,  juntar’,
passeere ‘acontecer’, glense ‘brilhar’. www.revistacontingentia.com | Cléo V. Altenhofen; Jaqueline Frey; Maria
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3
  Optamos,  aqui,  pelo  termo  língua,  quando  consideramos  seu  status  sistêmico  e
independente, em contato com o português (língua como sistema fônico e gramatical); a
opção por dialeto ocorre, quando  se destaca  sua condição de  subsistema do alemão e
sua  vinculação  histórica  ao  alemão  como  língua-teto  (Überdachungsnorm).  Veja-se
para tanto Coseriu (1982).
4
  Esta  estimativa,  que  se  baseia  em  resultados  do  projeto  BIRS  (Bilingüismo  no  Rio
Gande do Sul – v. ALTENHOFEN 1990) e dos censos do  IBGE de 1940 e 1950  (v.
MORTARA 1950), infelizmente os últimos que ainda inquiriram sobre outras “línguas,
além do português,  faladas no  lar,” deve ser  tomada apenas como um  indicador muito
geral. É praticamente impossível determinar um número preciso de falantes, ainda mais
considerando  que  os  censos  existentes  referem-se  às  línguas  pelo  nome  genérico,  no
caso alemão, sem referência propriamente à variedade dialetal específica que de fato é
falada.
5
  Tradução:  ‘Era  uma  vez  uma menina  /  de  dezenove,  vinte  anos  /  que  tinha  cabelos
marrons e lisos / da cor da casca da castanha.’


Tipologia do Hunsrückisch falado no Rio Grande do Sul, segundo Altenhofen (1996).

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   Mapa da variação de [a ] e [ ], segundo Altenhofen (1996).